O entusiasmo dos eventos vs. a falta de mão de obra

Estamos numa fase de grande empolgamento para o país, com um conjunto de eventos capazes de entusiasmar diversos públicos e gerações.

Desde logo o Festival da Eurovisão, que pretende ser um palco para a melhor (o conceito é subjetivo) música que se faz na Europa, ou nos países aderentes, mas que a espaços se torna num palco político de grande relevância. Já foi assim em diversas ocasiões e voltou a ser este ano com a vitória da Ucrânia, numa clara manifestação de apoio do povo votante. Ganhou a música, mas ficamos com a convicção de que os votos foram no povo e na sua capacidade de resistência ao invasor. A representante Portuguesa trouxe uma honrosa votação e um lugar acima do habitual e, neste caso, estou certo de que a votação foi na música e na artista. O país regozijou-se com tão boa prestação, elogiada por muitos comentadores espalhados pela Europa.

O campeonato de futebol terminou, para alegria de uns e tristeza de outros. Também aqui são muitos os que encontram alegrias, seja porque ganham, seja porque a posição em que ficam é muito honrosa, seja porque sobem de divisão, etc.. O futebol continua a dominar um volume tremendo da informação noticiosa e, mesmo quem não gosta, tropeça amiúde nos mais inusitados programas sobre tudo e sobre nada do que se passa no futebol.

Para o mercado funcionar é preciso pagar melhor, mas, para isso, as empresas também precisam que os fundos sejam transferidos a tempo e horas, o que não está a acontecer.

Esta semana, o norte e centro do país vão viver o Rali de Portugal. Evento do Campeonato do Mundo, trará a Portugal uma enchente de turistas a que se somam os que, em deslocação interna, estarão a centro e a norte para não perderem as emoções da alta velocidade. Este é seguramente um impulso para o turismo nacional, que passa quase ao lado dos canais de televisão. Ou, dito de outra forma, com mais relevância para o país que grande parte das notícias sobre futebol, não terá 5% do tempo de antena atribuído àquele.

Por falar em turismo, dizem os números que Portugal está de novo em alta, com taxas de procura e de ocupação elevadas. Talvez este tão importante setor, que consegue esgotar em grande parte as suas ofertas, pudesse beneficiar de um upgrade de qualidade. O setor tem ainda uma elevada taxa de trabalhadores recrutados sem formação ou competências próprias que, pela qualidade (ou falta dela) no serviço que prestam, podem não segurar o cliente para visitas futuras. Em compensação, muitos dos jovens portugueses formados nas melhores escolas emigram para palcos, onde a sua formação e competência é reconhecida. Valerá a pena que os senhores empresários equacionem se o upgrade do serviço que trabalhadores mais competentes podem trazer não será compensado com uma subida do nível de clientes dispostos a pagar mais.

O que se passa no turismo passa-se noutros setores, onde os empregadores, inclua-se aqui o setor público, estão a deixar fugir mão de obra de elevada, qualidade que muita falta faz ao país, ao ponto de nos colocar em rutura a breve prazo na execução de determinados compromissos. Os fundos do PRR poderão ser um problema e não uma solução, se não tivermos mão de obra para os executar, como se adivinha. Para o mercado funcionar é preciso pagar melhor, mas, para isso, as empresas também precisam que os fundos sejam transferidos a tempo e horas, o que não está a acontecer. Neste caso o empolgamento pode não ser suficiente; precisa-se de mais eficácia de todos os intervenientes.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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