O Chega trucidará o PSD

1 A noite das autárquicas é de resultado previsível mas day after conturbado. O vitorioso não será surpreendente ‒ o PS vencerá, mais uma vez, eleições que habitualmente penalizam quem governa ‒, mas aquilo que preencherá os comentários do dia seguinte não será o novo, repetido e já enjoativo sucesso do Partido Socialista, mas antes um dado drástico, surpreendente e chocante para os menos informados. Nestas eleições, não estaremos a falar de quem ganha, mas de quem, nos vários concelhos e freguesias, ficará em segundo lugar. E a grande novidade, nessa disputa do pódio, será o partido de André Ventura. Do mesmo modo que as presidenciais levantaram alvoroço devido ao meio milhão de votos que o líder do Chega reuniu, ultrapassando as candidaturas apoiadas pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda, as autárquicas deste ano causarão rebuliço pelas vilas e cidades em que os homens de Ventura ultrapassarão os nomes do PSD.

Sem querer cair no futurismo, as eventuais razões da queda ‒ ou não recandidatura à liderança - de Rui Rio residirão, em muito, no Chega. Em Matosinhos, em Loures e até em Sintra, onde o candidato social-democrata é o deputado que mais furor mediático despertou durante a pandemia, o PSD corre sério risco de ficar, não apenas atrás do PS, mas igualmente atrás do Chega. As manchetes de jornal irão por aí. A metamorfose no sistema político português - e, em particular, da realidade partidária à direita, como advertiu Marcelo Rebelo de Sousa a meio do seu primeiro mandato - será plasmada de forma nua, crua e fria. O país que tremeu na corrida a Belém gelará na madrugada do próximo 26 de setembro. Se tal já era relativamente pressuposto abaixo do Tejo, onde o PSD é crescentemente residual, o alastramento da direita populista e iliberal em zonas urbanas e suburbanas será monstruoso.

Em escassos três anos de existência, o Chega conquistará um espaço no panorama autárquico que o Bloco de Esquerda demorou duas décadas a sequer ambicionar. A sua capacidade de captar insatisfeitos e ávidos de protagonismo entre as várias forças políticas - movimentos independentes, centro-esquerda e centro-direita, que já se havia verificado nas regionais nos Açores, cujo desenlace todos recordamos - é notória e impiedosa, particularmente para o PSD, ancestralmente grande partido do poder local, futuramente abalroado pela eficácia logística e regimental do Chega.

Nada disto é realmente bom, mas tudo isto é verdadeiramente inevitável no ciclo político em vigor. Se o Chega incha ou desincha, antes ou depois das legislativas de 2023, é uma questão por responder. Mas aqueles que supõem que o seu grupo parlamentar, evidentemente maior do que o deputado único que hoje têm, será composto por maluquinhos das redes sociais e simpatizantes neonazis (que por lá os há), estão profundamente enganados. Ventura, depois da instalação autárquica deste ano, convidará académicos, ex-diplomatas e gente mais pragmática do que histérica para a sua bancada. A direita democrática, também aí, sofrerá com os seus novos vizinhos.

2 Ventura, que de parvo e desinformado nada tem, age tendo isto em mente. Ele, que há umas semanas acusava o PS e o PSD de serem iguais e que há meses jurava jamais aliar-se a qualquer "partido do sistema", veio agora lançar o desafio de uma plataforma de entendimento entre os não-socialistas: PSD, CDS, IL e o seu Chega. O propósito é tático e simples. Em vésperas dos congressos em que Rio e Rodrigues dos Santos encontrarão contestação, é ele que pretende aparecer como liderante e federador da direita. Fá-lo sabendo isso e adivinhando o triunfo autárquico que as eleições locais lhe oferecerão. O centro-direita, que teve uma legislatura para concertar uma estratégia contra a ameaça de André Ventura, permanece de cabeça enterrada na areia. Mudem as avestruzes.

Colunista

Mais Notícias

Outras Notícias GMG