O acne juvenil do Brasil

Não há nada mais irritante para um adolescente, logo a seguir a sair a nota, dececionante, de um exame escolar, ou ao chorar o primeiro coração partido, ou ao vomitar os shots da noite anterior por culpa de um fígado ainda tenro, ou ao enfrentar o insuportável acne juvenil, do que ouvir um velho, com ar paternalista, dizer que "tudo passa" e que "o tempo cura tudo".

"Tudo passa, o tempo cura tudo é o c...", pensam, e às vezes respondem, os adolescentes porque a ferida ainda está lá aberta, escancarada, recente. Mas tudo passa e o tempo cura mesmo tudo, sabemos nós, os velhos.

Nos últimos dias, no Brasil, tem havido uma discussão sobre o marco temporal dos territórios indígenas em que, simplificando, de um lado está o progresso - a preservação da natureza, a defesa do meio ambiente, o respeito aos povos originários do país - e do outro o atraso - os latifundiários gananciosos, os apropriadores de terras alucinados, os desmatadores furiosos.

No meio de uma discussão, no entanto, quem tem razão muitas vezes se excede ao ponto de acabar por, em parte, perdê-la. Como no episódio em que um coletivo chamado Uruçu Mirim decidiu incendiar uma estátua no Rio de Janeiro de Pedro Álvares Cabral (P.A.C.) - desde logo, a ideia de lutar contra uma estátua parece tão pateta como aquelas fotos de turista no Madame Tussauds a esmurrar um pobre Muhammad Ali de cera.

Entretanto, o ato do Uruçu Mirim, em vez de causar vergonha alheia, foi imediatamente apoiado por representantes da extrema-esquerda brasileira que agem por vezes, tal e qual os bolsonaristas que tanto criticam, como gado. "P.A.C. era genocida", gritaram, comparando o pobre navegador a um reles propagador de pandemias do século XXI. Não, não há registo na sua biografia de que P.A.C. tenha assassinado fosse quem fosse - do limpinho cadastro criminal do navegador de Belmonte não consta sequer o crime de depredação do património público.

Bom, mas a ideia era escolher um "símbolo" dos horrores da colonização e da escravatura, comentaram imediatamente milhares de brasileiros com sobrenomes iguaizinhos aos responsáveis pela colonização e a escravatura e ADN muito mais próximo do dos responsáveis pela colonização e a escravatura do que do das suas vítimas. Talvez fosse autocrítica, não se sabe.

Entretanto, como mandam as regras básicas da empatia, façamos o exercício de nos colocar no lugar do outro: será então que passa pela cabeça de um português incendiar o Templo Romano de Évora ou o Aqueduto das Águas Livres de Lisboa, ícones do mais escravocrata dos impérios? Atacar símbolos celtas, suevos, godos, visigodos e ostrogodos, por esses povos um dia terem colonizado e pilhado o retângulo mais ocidental da Europa? Ou até sinais dos nuestros hermanos castelhanos, adversários de tantas lutas? E renomear todas as centenas de localidades com nome de origem árabe (o autor destas linhas perderia logo o Almeida, por exemplo)?

Claro que não, até porque todos nós (como prova o tal Almeida) já carregamos tanto ou mais de cada um deles no nosso sangue do que dos lusitanos originais.

A diferença é que a colonização e a escravatura no Brasil são uma ferida muito jovem - 500 anos equivalem a uns minutinhos na sala de espera da humanidade. Por isso, mesmo correndo o risco de irritar o fígado tenro do adorável adolescente sul-americano ainda sob as agruras de uma terrível ressaca histórica, aqui fica o alento de um idoso: tudo passa.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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