Nas margens de Hollywood

Há uma nostalgia cinéfila em que não me reconheço: já não há filmes como antigamente... Não tenho essa visão pessimista da produção contemporânea, sou mesmo dos que veem o momento presente do cinema marcado por fascinantes contrastes (e contradições). E considero inconsequentes as queixas nostálgicas que escamoteiam o facto de o cinema existir sempre enquadrado por formas concretas de consumo.

A minha mágoa é de outra natureza: já não há consumo como antigamente... A questão reapareceu-me ao descobrir o filme Um Crime Imperfeito (2017), de James Toback, serenamente à deriva nas profundezas da televisão por cabo (TVCine). Comecei por ceder, confesso, à mais fácil memória nostálgica: eis o tipo de filme que, por exemplo, nos tempos heroicos do cinema Quarteto, na rua Flores de Lima, em Lisboa, sob a direção de Pedro Bandeira Freire, seria um pequeno grande acontecimento, por certo gerando entusiasmo ou desilusão (aliás, entusiasmo e desilusão) entre os seus consumidores...

Bem sei que o Quarteto pertence a uma conjuntura que, por definição, não se repete (inauguradas em 1975, as suas quatro salas encerraram em 2007). O que se perdeu é do domínio da atenção. Atenção a quê? A muitos filmes que são postos a circular. Tristemente, há todo um aparato de marketing indiferente, não apenas a qualquer forma de cinefilia, mas às próprias especificidades dos filmes, agora tratados como "produtos". No interior desse fechado sistema ideológico, o único dado que distingue o filme de Toback da mais recente banalidade gerada pelos estúdios Marvel são os respetivos orçamentos promocionais.

Enfim, não simplifiquemos: Um Crime Imperfeito é um objeto selvagem, resistente a qualquer modelo de marketing. Aliás, Toback, realizador e argumentista (neste caso, também intérprete), continua a ser aquilo que podemos chamar um "marginal do centro". Entenda-se: um profissional obviamente ligado ao sistema de Hollywood - obteve uma nomeação para o Óscar de melhor argumento original graças ao seu trabalho em Bugsy (1991), de Barry Levinson -, mas que sempre assinou filmes atípicos, apostando em variações mais ou menos surreais sobre matrizes clássicas, sobretudo do policial e do melodrama.

Na sua filmografia encontramos mesmo um objeto de culto da década de 70, Fingers (1978), entre nós lançado como Melodia para Um Assassino. Centrado num pianista a contas com uma família disfuncional (é um dos grandes papéis de Harvey Keitel), a sua bizarra reinvenção do thriller daria origem a um remake francês, sob a direção de Jacques Audiard, com o título De Tanto Bater o Meu Coração Parou (2005). Um Crime Imperfeito possui também essa capacidade de gerar uma insólita experiência sensorial a partir daquele que é, para todos os efeitos, um cliché do género: uma mulher - uma atriz interpretada por Sienna Miller - vive assombrada por um crime que cometeu, começando por duvidar se realmente aconteceu ou tudo não passou de um pesadelo...

Em boa verdade, o que conta é menos o enigma policial (desfeito ao fim de poucos minutos) e mais a celebração de uma estética de assumidos excessos "barrocos", alheia a qualquer verosimilhança naturalista. Toback faz mesmo o genérico do seu filme com a presença obsessiva do tríptico O Jardim das Delícias Terrenas (1504), de Hieronymus Bosch (pintura de que existe também uma reprodução na sala da protagonista), recorrendo a várias peças musicais - com destaque para o derradeiro andamento da Sinfonia n.º 7 (Leninegrado), de Dmitir Shostakovich - para criar uma ambiência "operática" em que espontaneidade e artifício parecem ser duas faces da mesma moeda.

Sintomático é o invulgar trabalho de Sienna Miller, filmada por Toback quase sempre em grande plano, dir-se-ia a meio caminho entre corpo e fantasma - como se, numa espécie de espelho narrativo, a sugestão de constante improviso coincidisse com uma forma suprema de teatralidade. O que, como é fácil perceber, só acentua a marginalidade de Um Crime Perfeito: quando prevalece a noção de que o cinema é apenas uma acumulação de "produtos" recheados de efeitos especiais, o valor dos atores e atrizes deixou de pesar nas formas dominantes de consumo.

Jornalista.

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