Michel Déon, o escritor francês que amou Portugal

Michel Déon foi um escritor francês cosmopolita, inventivo, aberto e, além disso, conhecedor e amante de Portugal. Em 1991 foi eleito membro correspondente da Academia de Ciências. Surpreende-me que não seja mais conhecido, que seja tão difícil encontrar os seus livros, em francês, e ainda mais em português. Se alguém quiser voltar à boa novela, às histórias bem contadas, convido-vos a descobrir Michel Déon. Há muitos anos que sou seu leitor, desde que uma amiga francesa me passou Les poneys sauvages, uma novela que descreve muito bem as contradições, os objetivos e as vidas dos europeus em meados do século passado.

Michel Déon (1919-2016) foi de certo modo um nómada, le nomade sédentaire, como lhe chamou o seu amigo, o escritor belga Pol Vandromme. Sentindo-se muito francês, quis afastar-se do pequeno mundo politizado e bastante maniqueísta das letras francesas ou, melhor dito, parisienses. Em Mes arches de Noé recolhe em trezentas páginas tudo o que, tanto literária como geograficamente, o marcou, incluindo este país. Viveu em Spetsai, Grécia, e também em Sintra; os últimos anos viveu-os na Irlanda, longe do mundano ruído de Paris. Buscava a solidão, a tranquilidade e o silêncio, condições indispensáveis para escrever. Sempre disse que de longe via melhor a França.

Recordo este escritor de pena hábil, horizontes rasgados e grande gosto pela vida. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente em Paris, no histórico hotel Pont Royal, perto da editora Gallimard. De uma amabilidade excecional, insólita para o mundo literário, conversamos sobre o nosso amor a Portugal, literatura e partilhámos o nosso amor comum pelos automóveis clássicos ingleses e os touros.

A sua escrita é diáfana, otimista e aberta ao mundo. Em França, os críticos bem pensantes salientavam mais frequentemente a sua ideologia política conservadora do que a sua qualidade de escritor. Fez parte do que malevolamente alguns chamaram les hussards (com Kléber Haedens, Roger Nimier, Antoine Blondin, Félicien Marceau e outros), escritores geniais que iam contracorrente do sempre politicamente correto Saint-Germain-des-Prés.

Foi deliberadamente esquecido pois ainda existe o funesto costume de medir os escritores pela bitola política mais do que pela literária, de maneira que são aceites no parnaso os de esquerda e esquecidos os de direita, e às vezes, embora menos, o contrário. Para além de ser injusto, é um disparate pseudoacadémico pois, nesse caso, teríamos de esquecer Quevedo, Dostoievski, Jünger, Borges, de um lado, ou Nazim Hikmet, García Márquez ou Neruda, de outro, para citar os que me vêm à cabeça de repente. Precisamente o maniqueísmo que Déon detestava.

Michel Déon deixou-nos uma obra literária, de viagens, diarística e articulista variada e viva. O seu díptico, Les vingt ans du jeune homme vert e Le jeune homme vert é o quadro vitalista daquela França entre as duas guerras, onde nos faz sentir essa tensão sempre fértil entre a França do norte e do sul do Loire, entre a França gótica e a França romana, entre a atlântica e a mediterrânica. A sua escrita felizmente não tem essa carga retórica e "umbiguista" (a cultura do eu, da egolatria) que tanto prejudicou certas letras francesas. Da sua novela Un taxi mauve fez-se uma memorável película com Charlotte Rampling, um Philippe Noiret inefável e um Fred Astaire já idoso mas ainda em forma.

Déon viveu algum tempo em Portugal, o que foi plasmado em muitos dos seus escritos. Sintra, Zambujal, Colares, Portinho da Arrábida eram parte do seu lugar no mundo. Curioso que, elegendo sempre as ilhas para viver, permanecesse em Portugal de 1959 a 1961. Mas, efetivamente, Portugal tinha então qualquer coisa de ilha na Europa.

Viveu uns meses no Casal das Murtas, em Cabriz, ao pé de Sintra. Graças à mediação de José Augusto dos Santos, diretor da Casa de Portugal em Paris, fez uma memorável entrevista a Salazar, "cuja vida, pensamento e obra me inspiravam respeito", disse. Falaram de Charles Maurras, de De Gaulle, de África, "os ingleses largaram tudo, menos mal que os franceses e os portugueses aguentam", disse-lhe Salazar. Déon disse-lhe que se sentia feliz em Portugal, onde vivia rodeado de gente simples, bondosa, cívica. "Toda a Europa era assim há 50 anos. Mentiram-lhe e mudou", afirmou o Presidente do Conselho.

Em Lisboa encontrava-se com o seu amigo Luís Forjaz Trigueiros, cuja casa ficava precisamente sobre os jardins da Presidência do Conselho. Forjaz escrevia então as suas memórias, onde contou, entre outras coisas, a sua entrevista com o marechal Foch em 1920, que acusava Clemenceau de ter perdido a paz. Encontrava-se também com Vitorino Nemésio, percorria Lisboa -"triste e alegre, com o seu cheiro a peixe com as marés, os seus fados desesperados e trémulos de prazer, os milhares de rostos populares com os pómulos salientes, os olhos negros sob as fortes arcadas das sobrancelhas, com a pele parda das mestiçagens", lia a poesia de Álvaro de Campos. Amante das corridas, vai ao Zambujal e encontra-se com cavaleiro tauromáquico José Rosa Rodrigues, percorre o Ribatejo, Santarém, admira os campinos.

Em 1961, Déon visita Angola e, em Malange, encontra desde um oficial que já então se declarava marxista a outros que defendiam a sua terra, em que nasceram. Mas o exército português parece-lhe indolente, pouco motivado.

Grande observador, há mais de dez anos Michel Déon já dizia a Bruno de Cessole - outro escritor francês amante de Portugal - que as novas tecnologias, sob essa aparência de eficácia e rapidez, poderiam contribuir para uma maior servidão humana, tal como o consumo desenfreado. Não era um profeta, simplesmente um observador com cultura. O progresso técnico, esse tapa-misérias, mascara a realidade e a servidão cada vez maior do cidadão". Os seus livros, além de se lerem com prazer e com interesse, nunca são triviais, mostram-nos as contradições do nosso tempo e alegram-nos a vida, o que nestes tempos algo obscuros, de forçada reclusão, é uma bênção.


Advogado e escritor espanhol

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