Merkel e as rimas da história

Como todos os líderes marcantes, é demasiado cedo para fazer já um balanço da ação de Merkel. Não apenas porque será a mais duradoura chanceler da Alemanha pós-1945, ultrapassando H. Kohl, mas porque a sua herança, à semelhança de outras figuras maiores da história germânica, mais do que êxitos (e a longa sobrevivência no cargo, contra crises sucessivas, não é o mais pequeno), conta com arestas cortantes, que não foram, por deliberação e omissão, convenientemente aparadas. O futuro impacto desses problemas cuja solução foi empurrada para diante ditarão o lugar de Merkel na história.

"A história não se repete, mas rima", escreveu o sábio Mark Twain. As analogias ajudam a pensar a história, mas apenas isso. O futuro continua a pertencer ao deus do destino e da incerteza. Atentemos em duas intrigantes "rimas". A primeira é a mais superficial: tudo parece indicar que o SPD vai ganhar as eleições, contra o que apontavam as eleições estaduais e as sondagens até às catastróficas cheias de julho último, que afetaram a Europa Central, causando enorme destruição e quase 200 mortos na Alemanha. Foi exatamente o que sucedeu depois das cheias de agosto de 2002. Schröder, o líder da coligação SPD-Verdes, já estava a arrumar os papéis para dar lugar a E. Stoiber, chefe da CDU-CSU, quando os alemães surpreenderam o analfabetismo ambiental e climático dos conservadores, renovando a confiança na aliança entre G. Schröder e J. Fischer.

A segunda analogia é mais complexa. Os dois maiores heróis germânicos foram Frederico II (1712-1786) e Bismarck (1815-1898). Foram os líderes transformativos do novo reino da Prússia (fundado em 1701). O primeiro tornou-o numa indispensável potência europeia. O segundo fez da Prússia o Estado hegemónico na criação do II Império alemão (1871), uma espécie de federação monárquica. Contudo, numa espécie de maldição partilhada, ambos viram as suas obras desbaratadas, exatamente, 20 anos após a morte. A Prússia de Frederico foi vencida e mutilada por Napoleão, em 1806. A Alemanha de Bismarck foi derrotada em 1918, e humilhada pelo Tratado de Versalhes. Tanto Frederico como Bismarck sabiam que os seus legados tinham profundas incompletudes. O seu tímido Código Civil exibiu a sua consciência, embora relutante, de que o despotismo teria de ser substituído por uma monarquia constitucional. Do mesmo modo, Bismarck percebia que depois da vitória sobre a França em 1871, as sementes de uma nova guerra europeia estavam à espera do momento certo para rebentarem. Em vez de ousar a reconciliação com a França, criou um complicado sistema de alianças, visando a contenção de Paris. Rapidamente, o novo Kaiser, Guilherme II, substituiu a prudência pela húbris, com os resultados que se conhecem.

Merkel foi sagaz o suficiente para aprender que as regras da união monetária do euro - a verdadeira chave da sobrevivência da União Europeia - eram absurdas. Por isso apoiou a transformação do BCE num banco central quase normal, suspendendo os intratáveis artigos 123, 125 e 127 do Tratado de Lisboa. Contrariando um repetido mantra, Merkel aceitou até que dívida europeia fosse emitida para sarar as feridas económicas e sociais deixadas pela pandemia. Contudo, as incompetentes e injustas regras do euro, corrigidas embora no exercício, foram deixadas com força de lei. Essa tarefa inacabada de Merkel constitui uma ameaça. Deixa latente a possibilidade de reabrir as feridas que quase destruíram a UE na década passada.

Professor universitário

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