Mengele vive

Joseph Mengele, médico do campo de concentração de Auschwitz, ganhou a alcunha "O Anjo da Morte", entre outros motivos, por extrair ossos de anões, amputar pernas e braços de gémeos ou arrancar olhos de heterocromáticos, para fins experimentais. Depois de utilizadas, as suas cobaias humanas, quase todas crianças, eram então enviadas para as câmaras de gás.

A prática de fazer testes com seres humanos vivos, infelizmente, não terminou em Mengele. Continua, em 2020, com o conhecimento, e talvez até o patrocínio, do governo do Brasil, conforme apurou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado Federal que apura os crimes (alguns contra a humanidade) do bolsonarismo na pandemia.

A CPI começou por demonstrar que, à margem do Ministério da Saúde, inicialmente tutelado por dois ministros médicos adeptos do distanciamento social e do uso de máscara, operava um gabinete paralelo composto por clínicos trapaceiros cuja principal preocupação era dizer o que o presidente da República queria ouvir.

Eles garantiram-lhe que, com remédios milagrosos incluídos num assustador "kit covid", os brasileiros passariam ilesos pela gripezinha mesmo sem distanciamento nem máscara. Como resultado desse crime, o Brasil foi atirado para a cauda da classificação mundial em casos e óbitos.

Já com um general paraquedista à frente de Ministério da Saúde, o cavalo de batalha de Bolsonaro passou a ser o combate às vacinas.

Não só alertou os compatriotas que se as tomassem poderiam "virar jacarés", como atrasou a compra de milhões de doses dos laboratórios mais prestigiados do mundo - segundo contas de epidemiologistas enviadas à CPI, mais de 100 mil brasileiros terão morrido por causa desse segundo crime.

Descobriu ainda a CPI, graças à delação de dois irmãos, um deputado e um técnico do Ministério da Saúde, que quando concedeu que seria inevitável fazer um plano de vacinação, o mesmo governo que antes fora tão escrupuloso na aquisição de imunizantes dos laboratórios de prestígio, decidiu comprar milhões de doses de uma vacina indiana usada até então apenas por Irão, Paraguai e ilhas Maurícia.

E fê-lo através de uns intermediários de passado duvidoso, sem nenhuma credencial além de serem comparsas do líder parlamentar de Bolsonaro na Câmara dos Deputados e dos filhos do presidente, que combinaram subornos de um dólar por dose enquanto brasileiros morriam de falta de ar. Bolsonaro foi avisado deste terceiro crime pelos dois irmãos mas nada fez.

Finalmente, a CPI trouxe à luz um quarto e definitivo crime: o escândalo da Prevent Senior, uma clínica que se tornou o braço médico do bolsonarismo por aplicar o tal "kit covid". Lá, a empresa, regida pelos mesmos princípios macabros de Mengele, usaram idosos com a doença como cobaias em experiências com esses remédios.

Mortos os doentes, ainda falsificavam as causas do óbito para fingir que não fora de covid.

Mengele escapou do Tribunal de Nuremberga, em 1946, por, acreditaram os juízes, estar morto à época do julgamento. Mas não: morreu só em 1979, de causas naturais, sob o nome Wolfgang Gerhard, enquanto nadava numa praia no Brasil, onde viveu de consciência tranquila por 20 anos.

Com o relatório da CPI em mãos, a justiça do Brasil tem agora o dever de impedir que, mais uma vez, assassinos poderosos morram impunes no país.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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