Marcelo está a pedir-nos o impossível?

O que Marcelo Rebelo de Sousa pede aos portugueses - que olhem para a História do país "sem autojustificações" nem "autoflagelações excessivas" - parece-me um objetivo bem-intencionado, mas...

Lembro-me de um exemplo que me parece lapidar: em 2012, uma universidade grega resolveu refazer o julgamento de Sócrates.

Estou a falar do filósofo grego, condenado à morte há 2420 anos por três razões principais: não aceitar os deuses gregos, promover falsos deuses e, com a divulgação das suas ideias, corromper a juventude. Em resumo, era ímpio, e isso, nessa altura, naquele sítio, era crime.

Os académicos gregos convidaram 10 juízes para apreciarem os factos, arranjaram advogados de acusação e de defesa para argumentarem, puseram historiadores qualificados a servirem de testemunhas e pediram sentenças que estivessem de acordo com as leis gregas da época, para respeitar o enquadramento espaço/tempo desse acontecimento.

Cinco juízes declararam Sócrates inocente. Cinco juízes declararam-no culpado, embora sem motivo para uma sentença de pena capital.

Portanto, mesmo passados mais de dois mil anos sobre os factos, quando não há razão para particulares paixões político-ideológicas associadas à questão, a análise das ocorrências e a elaboração de um juízo moderno subordinado à mentalidade da Antiguidade levou a conclusões, entre gente qualificada, diametralmente opostas.

Se olharmos para a realidade que preocupa o nosso Presidente da República, a tarefa que ele propõe é ainda mais difícil e divisora do que a dos juízes convocados pelos académicos gregos.

Como se pode pedir a um preso político do Estado Novo e à sua família, aos seus descendentes, que aceite o repto do Presidente da República na forma de olhar esse passado, quando é o próprio líder do Estado democrático que nunca diz o nome do objetivo da luta que levou essa pessoa à cadeia e à tortura: o derrube do fascismo?

Como pode Marcelo Rebelo de Sousa, "filho de um governante na Ditadura", como se apresentou, pedir a esta pessoa, e às suas famílias, o pressuposto de que o fascismo, que dominou boa parte das suas vidas, afinal não existiu, houve "apenas" uma... "Ditadura" (e com "D" maiúsculo, tal como o Presidente a escreve)?

Como se pode pedir a um descendente de escravos de há 200 anos, ou de contratados de há 80 anos, ou de mortos na guerra colonial de há 60 anos, ou de um espancado por um capataz numa roça há 50 anos, um juízo "menos apaixonado" sobre o colonialismo?

Como pode o Presidente da República de Portugal achar que pedir aos colonizadores para olharem "tanto quanto possível" para este tempo com "os olhos dos antigos colonizados" não corre, contraditoriamente, o risco de dar um sinal de condescendência paternalista totalmente insuportável para o "antigo colonizado"?

Como, por outro lado, se pode pedir a uma família de colonizadores, proprietários ou altos funcionários durante décadas em África, regressada a Portugal apenas com a roupa que trazia no corpo, que ache o mundo pós-colonial em geral e o processo português em particular um avanço civilizacional? É de certeza muito rara essa aceitação, mesmo que a pura racionalidade e educação a recomendem.

Até quando se olha para um passado bastante mais distante a serenidade não impera. Basta ver os insultos na internet sempre que vem ao de cima uma discussão ligada à Guerra Civil de 1832-1834 e sobre a legitimidade na sucessão ao trono na época: historiadores e políticos de direita e esquerda a trocar "mimos" emocionais, absolutistas de um lado e liberais do outro, miguelistas irritados, maçons indignados e um eterno refazer da História a tentar diabolizar o outro lado.

A pacificação destas polémicas históricas só se consegue quando elas deixarem de ter importância no presente, e isso está longe de acontecer.

O esforço do Presidente da República com o seu discurso no 25 de Abril tem vários méritos - é humano, procura ser justo, tenta o bom senso -, mas pensar que é possível olhar a História sem a "infetar" com a ideologia política do presente - seja a ideologia dominante, sejam as ideologias alternativas - é pedir aquilo que a humanidade, ao longo da História, nunca fez.

Este debate histórico, dominado pela luta político-ideológica do presente, por muito duro que seja, tem de continuar, e durante muito tempo.

Jornalista

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