Má educação

O atual ministro da Educação do Brasil, o pastor Milton Ribeiro, disse logo depois da posse, em julho de 2020, que "a biologia diz que não é normal a questão de género, a opção que você tem como adulto de ser homossexual, eu respeito, mas não concordo".

Para festejar um ano do cargo, acrescentou nas últimas semanas que "a universidade deve ser para poucos" e que "há crianças cuja deficiência atrapalha os demais alunos na sala de aula".

A comunidade académica do Brasil e os cerca de 64% de brasileiros que rejeitam Bolsonaro hesitam em exigir a sua saída. Eis a explicação.

Ao todo, Bolsonaro nomeou quatro ministros da Educação em dois anos e meio. O original, Ricardo Vélez, alterou logo no dia seguinte à posse a legislação sobre livros didáticos: passou a permitir que eles contivessem publicidade e suprimiu a obrigatoriedade de menções ao combate à violência contra a mulher.

Em entrevista, acrescentou que esses mesmos livros não iriam tratar o golpe de 1964 como golpe nem a ditadura militar que se lhe seguiu como ditadura. O primeiro seria chamado de "mudança de tipo institucional" e a segunda de "regime democrático de força".

Mais tarde, enviou uma mensagem para ser lida nas escolas antes de cada aula com o slogan de campanha do presidente a rematar. E pediu aos professores para filmarem os alunos a cantar o hino.

Noutra ocasião, afirmou que "o brasileiro, viajando, é um canibal". "Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo."

Desgastado, acabou canibalizado por corrente antagónica do governo e demitido. Para o substituir, Bolsonaro escolheu pior.

Abraham Weintraub, um discípulo fiel de Olavo de Carvalho, o guru do "novo conservadorismo brasileiro" (leia-se "velho atraso brasileiro"), começou por atacar aqueles que iria gerir - "há plantações extensivas de maconha [canábis] nas universidades públicas" - antes de se revelar um serial killer da língua portuguesa.

Num só tweet, provavelmente teclado antes de almoço, chamou Franz Kafka de "kafta", iguaria árabe muito comum no Brasil, e atacou "o PT e os seus acepipes", presumindo-se que em vez do sinónimo de petiscos quisesse escrever algo como "acólitos" ou "asseclas". Em carta enviada ao Ministério da Economia, queixou-se, num trecho, da possível "suspenção" e, noutro, da eventual "paralização" do ensino superior.

Noutra ocasião, filmou-se a cantar "há chuva de fake news", numa paródia ao Singin" in the Rain, de Gene Kelly, de causar arrepios de vergonha alheia.

E numa reunião ministerial, que pensou ser restrita, chamou os juízes do Supremo de "vagabundos".

Desgastado, fugiu às escondidas para os EUA. Para o substituir, Bolsonaro escolheu pior.

Carlos Decotelli tinha como pérolas do seu currículo um doutorado na Universidade de Rosário e um pós-doutorado na Universidade de Wuppertal, cujas existências foram desmentidas no dia seguinte pelas universidades de Rosário e de Wuppertal.

Desgastado, nem chegou a tomar posse (mas viciado em anabolizar currículos acrescentou às pressas o cargo de ministro da Educação ao CV). Para o substituir, Bolsonaro escolheu pior: o pastor Milton.

Com discurso homofóbico, medieval e eugenista, está, claro, desgastado. Mas a comunidade académica e os tais 64% não exigem a sua cabeça por temerem que, mais uma vez, venha aí pior. Porque no Bolsonaristão o pior não tem limite.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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