Lula na cabeça de Bolsonaro

Jair Bolsonaro, um defensor da censura e da tortura na ditadura militar do Brasil, fã de Pinochet e plagiador de Mussolini, quer lá saber da liberdade de expressão que no último dia 7 de setembro jurou defender perante uma multidão de mansos.

E para ele, que em nome da própria sobrevivência política já deixou cair dezenas de apoiantes de primeira hora, é-lhe indiferente que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha mandado prender os bolsonaristas Daniel Silveira, um deputado anabolizado que se ofereceu para fechar o STF; Roberto Jefferson, um ex-parlamentar envolvido em 11 de cada 10 casos de corrupção no país que gravou um vídeo de armas na mão a chamar macaco ao embaixador chinês; ou Zé Trovão, um camionista bizarro que ameaçou agredir os senadores que investigam esquema gordo de corrupção do governo na compra de vacinas.

Mais: não está nem aí para se o voto no Brasil é por urna eletrónica, método pelo qual foi eleito seis vezes sem se queixar, ou se de lá sai um ticket.

O que preocupa Bolsonaro são quatro letras: Lula. O antigo presidente começou por ultrapassar o atual nas sondagens, depois foi alargando a vantagem, pesquisa a pesquisa, e agora ameaça até, segundo todas elas, vencer à primeira volta.

A rábula do voto impresso visa tumultuar as eleições a priori e não a posteriori (o erro de Donald Trump, nos EUA, que Steve Bannon, já a operar no Brasil, quer evitar), como aqueles clubes que se começam a queixar do árbitro logo no dia da nomeação e não a meio do jogo.

Os ataques ao STF não surgem por causa dos pobres coitados bolsonaristas referidos acima mas porque foram os juízes da suprema corte que, ao considerar Sergio Moro suspeito de julgar Lula, permitiram ao antigo presidente recuperar os direitos políticos perdidos em 2018, fator que levou à eleição de Bolsonaro, e poder concorrer em 2022.

E a intimidação ad hominem a um ou dois deles, em suposta defesa da liberdade de expressão, pretende impedir Jair e os filhos Flávio, Carlos, Eduardo e Renan, investigados por dezenas de crimes, de irem para a cadeia a médio prazo. Se o presidente vem falando em ser preso nos últimos dias sem que ninguém lhe perguntasse nada, não é apenas um ato falhado - é porque chamar Lula de ex-presidiário era um dos seus raros trunfos face ao líder das sondagens.

Lula, Lula, Lula. Por alguma razão, na imprensa internacional, mais apta do que a imprensa local a ver a floresta do que a árvore, o antigo presidente esteve em todos os leads das manifs pró-Bolsonaro - "o presidente tentou retratar ministros do Supremo como vilões dissimulados que preparam o cenário para o retorno do seu arquirrival, Lula", escreveu o The New York Times; "manifestações surgem no contexto de queda nas sondagens e eventual derrota por larga margem para o seu principal rival, Lula", acrescentou o Financial Times.

Um dia, o piloto Nelson Piquet, que serviu de motorista de Bolsonaro nos protestos, foi confrontado com a pergunta "quem foi melhor, você ou Ayrton Senna?". "Eu estou vivo", respondeu, enquanto Nigel Mansell, que participava na entrevista, desabafava "meu Deus, que crueldade...".

Bolsonaro, por mais gente que leve às ruas - e com 25% nas sondagens é natural que leve muita - vive na sombra de um político mais popular do que ele. Sofre no fundo do que se podemos batizar de síndrome de Piquet, que nunca chegará aos calcanhares de Senna no gosto do povo.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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