Lázaro, uma aula de Brasil

Dos dias 9 a 28 de junho, um criminoso brasileiro - calma, desta vez não foi esse - esteve em todos os noticiários. Por 20 dias, Lázaro Barbosa, 32 anos, autor da chacina de uma família, entre outros crimes, num subúrbio de Brasília - ali a poucos quilómetros do palácio onde mora o tal -, fugiu da polícia num enredo de filme.

Descontadas as tragédias, o caso serviu, pelo menos, de curso intensivo de Brasil, um país que, segundo a célebre máxima de Tom Jobim, "não é para amadores".

Embora tenha sido tratado como tal, Lázaro não é, de acordo com os especialistas, um serial killer mas "apenas" mais um psicopata num país onde a vida está a preço de saldo, onde se mata primeiro e se pede a carteira depois, onde a obsessão por armas, como no parceiro de crime Estados Unidos, não só sobrevive em pleno século XXI como é oficialmente estimulada - e lá está ele de novo a pairar no texto.

Por outro lado, como a polícia - com 270 agentes, cães farejadores, helicópteros e drones - deixou Lázaro ir escapando pelo mato alto e pelos córregos dos rios, assaltando frigoríficos das casas da região pela noite e alvejando os agentes que, aqui e ali, tiveram o azar de o ver, o caso deu oportunidade aos políticos-justiceiros-palhaços - tão ao jeito daquele tal - aparecerem.

A deputada Magda Mofatto, por exemplo, fez-se fotografar num helicóptero, de metralhadora na mão, e a frase "Te cuida, Lázaro!". "Se o Ronaldo Caiado [governador de Goiás] não deu conta de te pegar, eu estou indo aí te pegar. Comandante, rumo para Cocalzinho [a região por onde circulava o criminoso]."

Um vereador de Fortaleza, inspetor Alberto, viajou para a região por, avisou, ter "informações relevantes" sobre Lázaro. "Vou prender esse vagabundo", prometeu.

Além deste duo tragicómico, o caso ficou marcado pelos milhares de pistas falsas recebidas por telefone pela polícia, da autoria de uma multidão de adultos infantilizados, pelos 346 perfis falsos de Lázaro criados por desocupados das redes sociais e pelas montagens, grosseiras, do criminoso ao lado de Lula da Silva - espalhadas nos grupos de WhatsApp pelo gado que apoia vocês sabem quem.

Finalmente, mesmo com os tais 270 agentes destacados, a polícia não teve competência para capturar Lázaro com vida - foi alvo de 125 tiros. Em vídeo, os autores dos disparos festejam alarvemente ao lado do cadáver. Na internet, mais macabras comemorações. "CPF [número de contribuinte] cancelado!" - celebrou, diretamente do Palácio do Planalto, o tal.

Mas no Brasil nada do que parece é. Lázaro, afinal, talvez não fosse tão Rambo como parecia: a polícia apurou que o assassino foi ajudado na fuga por fazendeiros da região, para os quais fazia serviço de "matador de aluguer" - segundo áudios de telemóvel, a família morta nos arredores de Brasília, por exemplo, devia dinheiro ao latifundiário Elmi Caetano, entretanto preso por ter abrigado Lázaro e tentado despistar a polícia.

"Pessoas importantes, empresários, fazendeiros, políticos, participam dessa organização criminosa", contou a delegada Rafaela Azzi a um programa da TV Globo.

Com o jagunço convenientemente morto, será mais difícil chegar ao topo da cadeia alimentar assassina. Como sempre. A impunidade dos poderosos é a definitiva e permanente lição de Brasil para amadores.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Mais Notícias

Outras Notícias GMG