Há economia para além dos fundos

Mais de um ano depois do início da pandemia, já temos vacinas mas ainda não temos o dinheiro da bazuca europeia. Nem teremos antes do verão.

Na semana em que Portugal entregou o seu Plano de Recuperação e Resiliência, este facto devia dizer-nos três coisas: que é preciso ter uma economia capaz de resistir a choques, porque o dinheiro não chega necessariamente a tempo da resposta à crise imediata; que o dinheiro europeu é importante, mas é mais importante como o gastamos do que quanto e quando é que vem; e, talvez o mais relevante, que a maior vantagem económica de pertencer à União Europeia não é, ou não deve ser, o dinheiro que vem de Bruxelas a fundo perdido. A lição mais difícil, em Portugal.

Enquanto em Lisboa se anunciava a entrega do plano para usar os fundos acordados em julho do ano passado, em Bruxelas discutiam-se dois processos legislativos com que a União Europeia espera liderar: a economia verde e a economia digital. Ou pelo menos não ficar para trás.

Visto de fora, com o ceticismo de quem acha que a União Europeia tem mais jargão do que importância política, a economia verde e digital são conceitos para fazer de conta que se tem ideias e projetos. Visto por quem olha para a Europa como muito mais do que um cofre, são regras que podem beneficiar, prejudicar, fazer nascer ou matar negócios e empresas. É por isso que tantos se interessam. Na Europa e não só. Se há coisa que mudou nos últimos anos é que as multinacionais tecnológicas americanas fazem quase tanto lóbi em Bruxelas como em Washington.
E muito mais do que alguns europeus.

A taxonomia verde definirá que investimentos energéticos são considerados verdes, e quais não. A partir daqui, da banca aos fundos de investimento, muitos fugirão do que ficar de fora e canalizarão recursos para o que esteja dentro. É por isso que a decisão sobre a inclusão ou não do gás natural, pelo menos transitoriamente, e do nuclear deu tanta discussão e acabou adiada. Porque as partes interessadas se mobilizaram.

A lei do clima, negociada entre a presidência portuguesa do Conselho e o Parlamento Europeu nos últimos dias, estabeleceu, entre outras coisas, que o objetivo dos 55% de redução de emissões até 2030, por comparação com 1990, só limitadamente pode ser feito por redução do carbono com o uso da terra. Lá se vão algumas ideias.

No digital, depois de ter começado a discussão sobre as plataformas e intermediários, a regulação da inteligência artificial, que ainda agora começou, está a mobilizar muito mais agentes económicos do que esperaria quem pensa que é tudo apenas lugares-comuns e talvez boas intenções. Para já defendeu-se que os sistemas de pontuação social, como há na China, e de reconhecimento facial para evitar crimes e perseguir criminosos, devem ficar de fora. Além de mexer com convicções ideológicas profundas, tudo isto condiciona positiva e negativamente vários negócios. Muito para além dos fundos europeus.

Voltamos ao princípio. Se tudo o que nos interessa sobre a Europa é quanto e quando vem o dinheiro, nunca perceberemos o valor económico da União Europeia. E acabaremos atrás dos que percebem.

Consultor em assuntos europeus

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