Eleições presidenciais

As eleições presidenciais de 2021 foram um acontecimento vazio e apenas necessário para legitimar o processo democrático. Sabíamos todos que Marcelo Rebelo de Sousa ganharia confortavelmente à primeira volta. Foi o que aconteceu: vitória inequívoca, discurso de vitória compatível com a responsabilidade que se lhe conhece e com o momento que o país atravessa.

Na realidade, a curiosidade das eleições centrou-se numa questão que André Ventura criou e a que a comunicação social e os eleitores aderiram: quem seria o primeiro dos últimos. O discurso populista do líder da extrema-direita criou um facto e todos lhe deram a importância que este pretendia.

O fenómeno em crescendo do Chega tenta responder ao poder instalado com uma fórmula de fazer política há muito não vista e que outros antes não tinham conseguido. A de ser sonoro e ter eco, criando de forma sagaz nas redes, na comunicação social, nas pessoas e até nos momentos polémico-pictóricos do batom eventos ruidosos "à Trump", agudizando argumentos, extremando posições e ressuscitando cadáveres. Tudo isto personificado num porta-voz de uma extrema-direita que alimenta ódios com o sentimento de insatisfação vigente. Os discursos a que nos habituou têm como base de sustentação aqueles que, ainda hoje, não recuperaram da perda de mordomias com a Revolução de Abril, os pouco letrados que adoram ouvir "gente importante" dizer mal do "sistema" e os que, não tendo conseguido vingar no "sistema", procuram nos outros a razão do seu insucesso e da sua falta de êxito. Capitalizou também os descontentes que, não acreditando nele, quiseram mostrar aos partidos do arco do governo que é preciso fazer política de outra forma e com outra assertividade.

A outra grande lição a retirar destas eleições é a contínua importância da abstenção. Conforme nos afastamos de Abril - onde ganhámos o direito a eleições livres - e a geração que viveu as agruras da ditadura vai diminuindo, são cada vez menos os que vão às urnas. Estamos a caminhar para legitimar as minorias, venham elas de que quadrante político vierem. Estas crescem pelo uso dos seus direitos, não abdicando de votar e de contribuir para a decisão. Os que acham que a liberdade e a democracia são direitos garantidos, são os que, quando o Estado atual se perder, terão de se calar e de não expressar a sua opinião. O sistema político tem sido penalizado com os cartões vermelhos das abstenções elevadas que se têm registado. As transformações a que os partidos procederam não foram "fora da caixa". Não foram fora do seu próprio sistema, dos seus interesses instalados... Será que agora, finalmente, vão os partidos do arco da governação perceber as mudanças a que são obrigados?

Dos discursos da noite eleitoral fica a frustração de os líderes dos partidos "tradicionais" (todos sem exceção) não reconhecerem a sua culpa na falta de comparência às urnas de mais de 6,5 milhões de eleitores (cinco milhões em território nacional) e de cerca de 500 mil terem votado no candidato que quer abolir a democracia e o Estado social. Os partidos do centro, da esquerda e da direita democráticas não precisam de mudar de ideologia... mas têm de mudar na forma como se comportam perante os eleitores, adotando comportamentos transparentes e escolhendo os protagonistas com base na meritocracia.


Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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