Sarkozy e os ideais da República

Numa V República francesa que foi fundada por Charles de Gaulle, uma figura épica, e que teve também entre os seus presidentes um estadista da qualidade de François Mitterrand, não é de crer que Nicolas Sarkozy tenha deixado grande marca. Mas ao ser agora condenado a um ano de prisão por ter ignorado todas as leis (e os alertas que lhe foram chegando) sobre limites de financiamento eleitoral na campanha de 2012, o antigo presidente serve de prova viva da força da ideia republicana de igualdade perante a lei. Até porque quando violou a lei não era um simples candidato, mas sim o próprio chefe do Estado em busca de um segundo mandato.

Sarkozy recorreu, como já recorreu antes de outra condenação por tráfico de influências. E a pena a ser aplicada em ambos os casos será a prisão domiciliária, com uso de pulseira eletrónica durante um ano. Não falta quem ache pouco como punição, mas também há quem defenda alguma contenção, tendo em conta ter sido alguém que os franceses, por sufrágio direto e universal, chegaram a votar para a presidência da nação.

Entre críticos e defensores nota-se muitas vezes também as simpatias políticas, mal escondidas, mas ao contrário de países onde os processos contra ex-líderes são meros ajustes de contas, a França pode ser incluída num restrito lote de democracias que mostraram a sua fidelidade aos valores constitucionais quando agiram contra os poderosos, até presidentes. É um lote que inclui a África do Sul, onde o ex-presidente Jacob Zuma foi preso por recusar colaborar numa investigação sobre corrupção, a Coreia do Sul, em que dois antigos presidentes estão atualmente atrás das grades, no caso de Park Geun-hye, tendo mesmo sido destituída do cargo. Também Taiwan, formalmente República da China, julgou e condenou por corrupção o presidente Chen Shui-bian assim que este deixou o cargo e perdeu a imunidade, uma mostra de imparcialidade da justiça nesta ilha que a República Popular da China pressiona para que se reunifique com a parte continental após sete décadas de separação.

No índice de perceção da corrupção por país, que o DN ontem publicou no âmbito de uma série de trabalhos sobre o fenómeno da corrupção, destacam-se pela positiva a Nova Zelândia e a Dinamarca. A nível da União Europeia, e perante a liderança do pequeno país nórdico, a França ocupa a 11.ª posição, só dois lugares melhor do que Portugal, mas com a diferença de em termos de pontuação estar acima da média dos 27, enquanto o nosso país está abaixo, na realidade com o seu pior resultado de sempre na avaliação feita pela Transparência Internacional.

Taiwan, só para usar os mesmos exemplos, faz melhor também do que Portugal, a Coreia do Sul tem igual pontuação e a África do Sul revela-se bastante pior, pior mesmo - e isto é um elogio aos dois pequenos Estados insulares - do que as nações lusófonas africanas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.

A Revolução Francesa acabou em Waterloo, 26 anos depois da tomada da Bastilha. É verdade que Napoleão, que se autocoroou imperador, era verdadeiramente um filho da Revolução, mas já a tinha atraiçoado com a sua sede de poder. Contudo, a ideia de todos os cidadãos serem iguais perante a lei - em extremo, um corso liderar a França como dois séculos depois o filho de um imigrante húngaro também - nasceu na sua forma moderna em 1789 com os franceses e por isso o exemplo do seu republicanismo tão importante é ainda hoje para o mundo.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG