Atenção ao homem do SPD

Com os trabalhistas britânicos remetidos ao mais pequeno grupo parlamentar desde 1935, o Partido Socialista francês também em mínimos históricos e o Partido Democrata a ser apenas a terceira força em Itália, o triunfo do SPD nas legislativas alemãs de domingo significa a possibilidade de voltar a haver um governo de um dos quatro grandes países da Europa Ocidental chefiado por alguém do campo social-democrata. Para isso será necessário que Olaf Scholz transforme os magros 25,7% da sua vitória nas urnas (mesmo assim uma subida de 5,2 pontos percentuais em relação a 2017) nos alicerces de uma coligação que o leve a chanceler, substituindo a democrata-cristã Angela Merkel, de quem era até agora ministro das Finanças, no quadro de uma aliança governamental que durava há oito anos.

É evidente que a Espanha tem em Pedro Sánchez um primeiro-ministro socialista (socialistas, sociais-democratas ou trabalhistas, a ideologia é a mesma com exceção do PSD português, pois este no Parlamento Europeu integra o campo dos conservadores), que também um socialista, António Costa, governa Portugal e até que, graças à mudança nas recentes eleições norueguesas, toda a Escandinávia volta a ter em comum, pela primeira vez em meio século, chefes de governo sociais-democratas, os criadores do famoso modelo nórdico de sociedade. Mas a Alemanha, temos de admitir, é a Alemanha, e sobretudo o SPD é o SPD, um partido com século e meio de história.

Antes destas vitórias na Noruega, no dia 14, e na Alemanha, no dia 24, apenas cinco países da Europa Ocidental tinham primeiros-ministros do campo social-democrata ou do socialismo democrático. E em outros quatro havia ministros desses partidos, como era o caso da Alemanha. Caso se confirme a lógica ascensão de Scholz a chanceler, talvez liderando uma inédita coligação a três com os ecologistas e os liberais, a mais populosa nação europeia (com exceção da Rússia, gigante euro-asiático), país também detentor da maior economia do continente (aqui, sem exceções), pode muito bem dar o sinal, e o exemplo, para um reforço político do centro-esquerda nas suas vizinhanças próximas e menos próximas.

Para uma Europa (num sentido mais lato até do que UE) órfã da liderança de Merkel, as comparações precipitadas de perfis entre o futuro chanceler e a ex-chanceler arriscam ser falhadas. Em 2005, ninguém via Merkel como carismática quando derrotou por margem mínima Gerhard Schröder e hoje quase que se dava por certo um quinto mandato seu se tivesse decidido apresentar-se como candidata da CDU. Scholz fez renascer o SPD, devolveu-lhe a ambição de ganhar, e isso não é pouco.

E Scholz, chanceler, terá consigo todo o prestígio de um partido que nasceu ainda em vida de Karl Marx, que pela sua defesa das causas sociais obrigou o chanceler Bismarck a dotar o Império Alemão de leis protetoras dos trabalhadores bem antes do resto da Europa, e que não só foi um dos fundadores da chamada República de Weimar como o único no parlamento de Berlim (os comunistas já tinham sido ilegalizados) a recusar os plenos poderes a Hitler.

Em 1959, dez anos depois da criação da República Federal da Alemanha, o SPD renunciou de vez ao marxismo no programa, desistindo de destruir o capitalismo. Demorou mais uma década a ter um chanceler, mas desde então tem alternado com os democratas-cristãos na condução da locomotiva da Europa, nação reunificada em 1990, extinta que foi a RDA com a queda do muro de Berlim. E se Merkel deixou marcas, aquele que a deverá suceder tem também margem para influenciar os destinos do país e do continente, numa perspetiva de construção da unidade europeia como a chanceler da CDU, mas com uma inclinação à esquerda, ainda que pragmática, como é tradicional nos alemães, e Scholz é um centrista do partido. Atenção ao homem do SPD.

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