É evidente que acabou 

Independentemente do desenlace da crise política do Orçamento do Estado, a solução de poder protagonizada pelo PS desde 2015 está, a partir de agora, ferida de morte.

Mesmo que o Orçamento acabe milagrosamente por passar, qualquer observador é já capaz de duas certezas: a primeira é que o próximo não terá a mesma sorte, isto é, que se tratará do último OE deste governo; a segunda é que o Partido Socialista, enquanto força de resposta aos problemas do país, está esgotado. Não convence nem centrais sindicais, nem entidades patronais. Não agrada nem a trabalhadores, nem a empresas. Não se entende nem com a direita, nem com a esquerda. Não negociou sequer com o líder da oposição mais propenso a acordos que lhe podia ter calhado: Rui Rio.

António Costa, cuja conquista de São Bento teve o condão de reunir novidade e estabilidade, prepara-se assim para uma saída de cena menos gloriosa do que a sua entrada em palco.

A recusa em contar com o PSD de Rio, há um ano, que sem dúvida lhe teria deixado passar este Orçamento em nome "do interesse nacional", dos "fundos europeus", da "pandemia", do "inverno que aí vem" e demais alíbis para o seu fetiche centrista, amarrou-o a uma esquerda que, contrariamente a Rio, nunca estará satisfeita. O governo pede propostas ao Bloco, o governo recusa as propostas do Bloco. O governo cede nas creches e nas pensões ao PCP, o PCP responde que não chega. Nada chega. Quase parece que se Costa anunciasse a saída da NATO e da União Europeia não seria suficiente para os comunistas; como se fossem eles, os últimos que abandonaram o PS, a sinalizar-lhes definitivamente o beco sem saída em que se enfiaram.

Os socialistas, para quem o fim de ciclo de poder seria sempre doloroso e surpreendente, não compreenderam que a farsa de prometer, orçamentar e cativar o que haviam prometido tinha os seus limites. E esses limites materializaram-se em 2021; depois de uma crise sanitária e económica sem precedentes no regime democrático, depois de dois atos eleitorais (presidenciais e autárquicas) desastrosos para os seus aliados parlamentares, depois de seis anos de sobranceria e incompetência grosseira, frequentemente órfãs de responsabilidade política.

O primeiro-ministro, que é um sobrevivente, já foge à ideia de ida às urnas, chutando para o canto do Presidente da República a dissolução da Assembleia. Marcelo, como é sabido, nunca quis aquilo que apelida de "bomba atómica". A questão, no dia em que tal suceder, é simples: algum dos blocos - à direita ou à esquerda - obterá uma maioria? E se António Costa não for o mais votado, como em 2015, terá força para inverter novamente o resultado, roubando um primeiro lugar ao PSD e regressando aos braços da esquerda? E, só aqui entre nós, qual dos dois candidatos à liderança do PSD teria mais autoridade popular para contrariar uma reedição da "geringonça"? Rio ou Rangel?

Descobriremos, mais cedo do que tarde.

Mas é evidente que acabou.

Colunista

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