Donald Rumsfeld (1932-2021): A raposa negra

Em 1974, quando Richard Nixon se demitiu da presidência dos Estados Unidos da América, sendo sucedido por um homem que se havia tornado vice-presidente devido a outro escândalo de corrupção, o novo presidente escreveu três nomes numa lista: George H. W. Bush, Nelson Rockefeller e Donald Rumsfeld.

Um dos três seria o novo vice-presidente do novo presidente. A disputa, entre três pesos-pesados do Partido Republicano, não correu mal a nenhum deles. Rockefeller, milionário e antigo governador do estado de Nova Iorque, seria o selecionado. Bush (pai) recusaria as embaixadas de Paris e Londres para rumar à recém-reaproximada Pequim. E Donald Rumsfeld, nascido em 1932 em Chicago e defunto nesta terça-feira no Novo México, seria o chefe de gabinete de uma Sala Oval em mudanças. A urgência seria tal que o convite do presidente lhe chegaria por telefone, a meio do funeral do seu pai, no Illinois. Rumsfeld impôs duas condições a Ford: autoridade total e a garantia de que, assim que vagasse uma posição no executivo, seria dele.

Olhando para trás, a implacabilidade do norte-americano, forçado a interromper o enterro do pai para atender Gerald Ford, negociando friamente a ida para o governo de um presidente que acabara de anunciar o perdão de Nixon e de saber que a mulher tinha cancro no pulmão, não deixa de ser assombrosa. "Do momento em que os seus pés tocavam no tapete de manhã até ao momento em que pousava a cabeça na almofada à noite, Don Rumsfeld pensava numa coisa: ser presidente", recorda um colega de então, no livro The Gatekeepers, de Chris Wipple.

O seu braço direito como chefe de gabinete adjunto seria um homem que, volvidas três décadas, viria a reencontrar nos corredores da Casa Branca em circunstâncias distintas e hierarquias inversas: o infame Dick Cheney. A parceria, em ambas as suas encarnações, seria historicamente marcante ‒ o Iraque que o diga. Questionado sobre as suas responsabilidades na desastrosa invasão, Rumsfeld responderia com a ambiguidade dos cínicos: "Quando se faz qualquer coisa, espera-se sempre que corra bem, não é?"

O seu legado como modernizador das Forças Armadas é largamente suplantando pela sua passividade perante a tortura de prisioneiros e pelas consequências da sua estratégia neoconservadora no Médio Oriente. Como resumiu o historiador e jornalista George Packer, "faltava-lhe a coragem para duvidar de si próprio e sabedoria para mudar de ideias".

Em 1976, com nova remodelação na administração de Gerald Ford, Dick Cheney torna-se chefe de gabinete do presidente com meros 35 anos e Rumsfeld assume pela primeira vez o cargo a que regressaria com George W. Bush no início deste século: secretário da Defesa. Numa lista de conselhos para o jovem Cheney, o primeiro e o último ponto eram o mesmo: "Lembra-te: tu não és o presidente." Uma máxima que Cheney, como é sabido, não manteve na sua restante carreira.

No mesmo ano, de modo a afastar Bush (pai) da corrida para a nomeação de vice-presidente caso Ford se recandidatasse, Rumsfeld convence o presidente a convidar o então embaixador na China para diretor da CIA; uma posição que o inibiria anos suficientes da vida partidária para não representar um obstáculo às suas ambições. Era a típica manobra de uma velha raposa: persuadir o patrão a promover o rival a uma posição irrecusável, aproximando-se ele próprio da posição que ambos preferiam. Quando Bush (filho), três décadas mais tarde, convida Rumsfeld para secretário da Defesa, um amigo próximo do pai recorda-o do sucedido. "A única coisa que te vou dizer é isto: lembra-te do que ele fez ao teu pai." Mas o presidente não o ouviu e Rumsfeld, depois de ter sido o mais jovem rosto do Pentágono com Ford, tornar-se-ia o mais experiente secretário da Defesa com W. Bush.

Durante uma geração, foram estes homens, estas famílias e este partido que tomaram conta da América. E foi essa América que dominou a ordem mundial da segunda metade do século XX até ao final da Guerra Fria. Donald Rumsfeld esteve sentado na primeira fila de tudo isso, como testemunha, ator ou perturbador de Washington DC durante mais de 40 anos; como escuteiro, atleta universitário, piloto da Marinha, congressista, diplomata, empresário e governante dos Estados Unidos da América.

E é ele, há dias falecido com 88 anos, a prova de que a participação numa história de gigantes não reduz a pequenez de quem com eles conviveu.

Colunista

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