Do delírio à deceção

1 O modo como a retirada americana do Afeganistão ficará na história dependerá mais do que suceder a partir de agora do que do que aconteceu nos dias iniciais. Por mais visual e emocional que seja a queda de Cabul, os massacres reportados nas cidades antes tomadas (Herat, Kandahar, Jalalabad), a violência nas estradas de acesso ao aeroporto da capital, os apelos de intérpretes que colaboraram com o Ocidente e as marchas de protesto de mulheres que não abdicam dos seus direitos, o futuro do território afegão será determinado pela sua relação com o exterior.

A operação de comunicação política engendrada pelos talibãs nas últimas horas deriva dessa noção. O seu equilibrismo entre aparente moderação (a promessa de ausência de repercussões) e pontes de contacto com as suas fações mais ortodoxas (atenção ao anúncio do fim do cultivo da papoila...) demonstra um apurado sentido de gestão política por parte dos novos senhores do Afeganistão. Mesmo que "a jihad não vá parar até ao último dia", como já avisaram.

O Ocidente, imbuído de ingenuidade ou cinismo, não contraria a ginástica e corresponde com idêntica elasticidade. A UNICEF diz-se "otimista" quanto ao futuro dos direitos humanos no Afeganistão. A Comissão Europeia, na voz do sempre desastrado Josep Borrell, declara inevitável o diálogo com os talibãs, "pois ganharam a guerra". O governo português tenciona "esperar para ver", quando os atos de violência, perseguições, execuções, desaparecimentos, estão já à vista.

A ambiguidade amoral dos nossos decisores é entendível pelo nível de incerteza em torno da questão afegã. Só um tolo afirmará com certeza o que acontecerá ou não no país. O primeiro momento definidor desse futuro passa pelo sucesso ou o insucesso da ponte área entre o Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul, e o regresso de cerca de 15 mil norte-americanos ainda no território. Por mais pressão e vontade que haja para garantir a segurança dos locais que colaboraram com forças americanas, Washington já revelou não ter qualquer registo oficial dos nomes afegãos que prestaram serviços às suas tropas nos últimos 20 anos. Ficarão, por isso, à mercê dos talibãs.

Quanto aos seus cidadãos ainda presentes no Afeganistão, a Casa Branca anunciou ter garantias sobre o acesso ao aeroporto da capital, mas recusou pronunciar-se sobre o grau de confiança nessas garantias. Pelas reportagens no terreno, os checkpoints montados pelos talibãs estão a travar e a impedir o acesso de forma ativa. Na passada madrugada, numa estrada junto ao Hamid Karzai, dispersaram mulheres e crianças com paus, pedras e armas de fogo.

2 Poucos teríamos estranhado se o antecessor de Joe Biden houvesse assistido à queda de Cabul de férias, em Camp David, e não tivesse estabelecido contacto com chefes de Estado ou governo estrangeiros nos dias seguintes. Não teria surpreendido se Donald Trump retirasse do Afeganistão sem articulação com a NATO ou planos para impedir o caos. Biden, eleito presidente dos EUA com uma agenda de multilateralismo e suposto "regresso da América" à arena internacional, fez tudo isso. Em 36 dias, o homem que nem concebia a hipótese de o governo afegão cair viu a sua embaixada ser evacuada por helicóptero no telhado. Em 19 anos, o senador que pedira para "não termos medo do nation-building" tornou-se o presidente que negou que tal alguma vez fosse possível.

A história, como o próprio avisava em 2002, "irá julgar a América duramente". E a ele também.

Colunista

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