Direitos humanos universais ou carne de porco a vegetarianos

Falta-nos "vontade de entender e (...) disponibilidade para admitir o que (tem) de bom" um grupo de combatentes que infligem sofrimento incrível e desumano a gente que tanto podem ser inimigos, como crianças ou mulheres. É pelo menos o que acha a advogada e argumentista Carmo Afonso, num texto publicado no Expresso. E para nos recordar que o outro pode ser diferente de nós traz para a crónica sobre os Talibãs os "homens" da serra do Caldeirão, que falam, bebem e se portam como "homens" da serra, que também não destapam o corpo quando trabalham debaixo de calor e que não abraçam causas progressistas.

No fundo, entre os "homens" da serra que dizem palavrões e se pudessem "não metiam o cinto (de segurança)" e uns guerrilheiros que decapitam adversários, apedrejam mulheres, proíbem música e dão guarida a terroristas há uma semelhança, acredita a mesma pessoa que quer ilegalizar o Chega: são diferentes de nós. E nós recusamo-nos a olhá-los com outra lente que não a nossa. E daí, cândida ou cinicamente, conclui que queremos impor direitos humanos a quem os não quer. Da mesma forma, supõe-se, que impomos regras de trânsito aos "homens" da serra. Somos como um estafeta da Uber a entregar secretos de porco preto a um prédio de vegetarianos. A comparação está lá.

Façamos de conta que é possível deixar de lado o detalhe de, no caso das mulheres apedrejadas, das raparigas sobre quem disparam quando querem ir à escola (Malala Yousafzai) ou dos homens decapitados, apenas uma das partes não "querer" os direitos humanos. Há três problemas de fundo nesta lengalenga sobre a imposição dos supostos valores ocidentais.

Sim, é verdade que o Ocidente não invade todos os países que violam direitos humanos, nem derruba todos os seus líderes e converte-os à "ideologia dos direitos humanos". E, pior, até convive e relaciona-se com regimes igualmente deploráveis. A alternativa, porém, seria invadir o mundo quase todo. E depois ser acusado de colonialismo e de imposição de valores.

Sim, o Ocidente, com raras excepções, intervém apenas onde tem interesses. As montanhas do Afeganistão que albergavam Bin Laden e a Al-Qaeda são um bom exemplo. A questão está em saber se quando o faz, por interesse próprio, melhora aqueles lugares. Perguntem às mulheres que estão a passar os filhos por cima do arame farpado do aeroporto de Cabul o que pensam sobre o que é viver no Afeganistão agora e antes. Chamem-lhe porco preto a vegetarianos, chamem.

E, por último, mostrem um lugar no mundo, ou um tempo na história, melhor para se viver do que no Ocidente contemporâneo. A verdadeira discussão é esta.

Há, sobretudo na Europa mas cada vez mais nos Estados Unidos, uma esquerda, que é radical mas que a esquerda moderada acolhe com bonomia, que gosta de viver com valores que nos foram impostos (a quantidade de direitos que foram impostos contra várias vontades haveria de surpreender a cronista da serra do Caldeirão), mas que os acha dispensáveis no resto do mundo, sempre que o resto do mundo seja anti-ocidental. Ao mesmo tempo que acusa o Ocidente de ser responsável pela sua inexistência noutros lugares. Esta gente acredita mesmo o Ocidente capitalista é inimigo das mulheres, de todas as raças menos dos brancos, e de todos os humanos menos dos homens heterossexuais. Só não consegue mostrar em que outro tempo ou lugar essa gente toda vive ou viveu melhor.

Claro que é possível e legítimo criticar o Ocidente. É, aliás, uma das suas virtudes. Procurem fazer esse exercício na China, na Rússia ou nas montanhas do Afeganistão. Vão ver que na serra do Caldeirão é muito mais fácil.

Consultor em assuntos europeus

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