De cabeça erguida

À hora do fecho desta edição, um dado podia dar-se por adquirido: em Coimbra, Barcelos e Lisboa, os três concelhos de vigor continental onde Rui Rio fez escolhas assumidamente pessoais, o PSD triunfou ou disputou seriamente as câmaras municipais.

Quer isto dizer que, apesar de tosco e ocasionalmente insólito, Rio cumpriu o que prometeu aos seus militantes: subir o resultado autárquico do seu partido, roubar concelhos de densidade populacional ao PS e montar alicerces para disputar as próximas autárquicas, em 2025.

Num ato eleitoral matematicamente impossível de ganhar a António Costa após os desaires locais de 2013 e 2017, Rio conseguiu ontem a sua primeira derrota honrosa, depois de ter falhado duplamente em 2019 (em europeias e legislativas).

É, portanto, uma oportunidade para Rui Rio fazer algo que tanto o PSD quanto o sistema partidário português precisam que faça: sair de cabeça erguida, dar lugar a alguém que desempenhe o papel em que Rio nunca se sentiu confortável ‒ o de líder da oposição e reequilibrar os equilíbrios constitucionais do regime diante do crescimento do Chega, que se manteve sólido na noite passada.

Esta eventual saída digna por parte de Rui Rio tem tanto de racional quanto de oportuna. Por um lado, porque o PSD continua nacionalmente abaixo dos 30% em sondagem para legislativas (meta que Rio nunca conseguiu ultrapassar nos seus quatro anos de liderança laranja). Por outro, porque estas autárquicas, apesar de confirmarem a hegemonia nacional do Partido Socialista e a previsibilidade da sua vitória, mostram uma tendência de queda gradual de quem governa e de princípio de subida para a oposição, a médio prazo.

António Costa, que não perde uma eleição há seis anos, desde que se fez primeiro-ministro após derrotado em 2015, meteu a carne toda no assador nestas autárquicas e, mesmo assim, a sua vitória não deixa de saber "a poucochinho".

As suas dificuldades em campanha, nada surpreendentes, fizeram-se ver. Nem com bazuca, nem com favoritismo abismal, nem com o Presidente da República a elogiar os autarcas incumbentes no dia da ida às urnas, o PS conseguiu esmagar a direita. O insucesso mais claro vai, precisamente, para quem menos convém ao governo: o PCP. E a novela do Orçamento do Estado tornou-se manifestamente mais complexa, e mais curiosa, após este domingo.

PS: com as limitações a que a hora obriga, os resultados locais do PSD fazem antever algo que terá relevância política no congresso social-democrata que se avizinha. A distribuição dos equilíbrios de poder interno no PSD muda com estes resultados autárquicos. Tal é já claro. E a discussão da sucessão - ou da contestação - a Rui Rio no próximo janeiro será em muito influenciada por isso. Uma campanha desinteressante desabrochou numa madrugada com novos interesses e, no PSD, novos protagonistas.

Colunista

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