Da vida das marionetas

Nas últimas décadas, com a consolidação comercial dos chamados blockbusters - e, em particular, através do marketing das aventuras de super-heróis com chancela dos estúdios Marvel -, a atualidade informativa do cinema passou a ser dominada pela inventariação das receitas dos filmes. Para alguns discursos jornalísticos, o box office foi mesmo escolhido como padrão único de caracterização do fenómeno cinematográfico. As reflexões sobre a arte de fazer cinema tornaram-se minoritárias, por vezes denunciadas como dispensáveis e até suspeitas.

Qualquer filme que consiga acumular receitas globais de algumas centenas de milhões de dólares tem garantido um período considerável de manchetes. Na prática, tais manchetes sancionam uma lógica de mobilização de (mais) compradores de bilhetes.

Há uma ideologia consumista, fabricada e vendida em nome do espectáculo, que se empenha em fazer crer que as qualidades cinematográficas de um filme (a redundância é apenas aparente) são coisa descartável. Dir-se-ia que os novos cinéfilos se devem definir e mutuamente reconhecer, não através da atenção prestada às singularidades de um filme, autor ou modelo narrativo, apenas porque podem ser peões anónimos de um fenómeno global cuja medida única, compulsiva mesmo, é a acumulação de milhões de dólares. O reverso da medalha é sintomático: quando um filme industrialmente importante falha no box office (insisto na expressão porque ela se tornou, de facto, universal), proliferam as análises mais ou menos piedosas, apostadas em "explicar" o seu contraditório falhanço.

Está a acontecer agora face à modesta performance comercial de West Side Story, de Steven Spielberg. Modesta será mesmo um eufemismo: ao fim de duas semanas de exibição, a adaptação do musical de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim acumulou 20 milhões de dólares nas salas dos EUA, estando ainda abaixo dos 10 milhões nos restantes mercados (em Portugal, a sua debilidade comercial traduz-se em escassos 15 mil espectadores em doze dias de exibição). Para um objeto que, segundo as notícias, custou 100 milhões, trata-se de um panorama pouco menos que desastroso.

Para mim, West Side Story é uma das obras-primas de 2021. Em todo o caso, não é um qualquer juízo de valor que está em causa. Bem sei que o senso comum reduz o trabalho crítico a uma acumulação de muitas ou poucas estrelinhas, mas talvez seja pedagógico relembrar que fazer crítica de cinema não tem nada a ver com tentar "convencer" os outros do que quer que seja. Pensar um filme - e, sobretudo, com um filme - é também tentar problematizar as condições sociais da sua perceção e, em particular, os respetivos enquadramentos jornalísticos. Face a West Side Story, ressurgiu uma abordagem economicista cujo modelo encontramos num artigo de Rebecca Rubin, publicado no Variety (13 dez.).

Entenda-se: como é habitual em tão sério e lendário órgão jornalístico, aí encontramos importantes informações sobre valores e tendências da vida económica dos filmes. Neste caso, inventariando alguns factores que, seguramente, terão pesado no modesto comportamento comercial do filme: a ocupação dos circuitos de difusão por filmes de super-heróis, a necessidade de garantir grandes receitas logo no fim de semana de abertura, a deserção das salas pelos espectadores acima dos 35 ou 40 anos, etc.

Ainda assim, é espantoso que tudo isso pareça pertencer a um mundo em que não há tratamento mediático dos filmes. Como se, há muitos anos, não estivéssemos a ser bombardeados por uma (des)informação que trata o cinema como um jogo maniqueísta de variações entre efeitos especiais e box office. Em algumas abordagens do falhanço comercial de West Side Story, parece até que o filme de Spielberg é exterior a qualquer conjuntura (económica & cultural), estando apenas a cumprir um "destino".

A imagem do cinema como fenómeno que se esgota no inventário dos números da sua economia gerou um espaço de perceção dos filmes que exclui a simples apreciação da sua condição de... filmes. Apesar da sua evidente utilidade informativa, o site IMDb é um esclarecedor sintoma deste estado de coisas. Por exemplo, se consultarmos a respetiva lista dos filmes "mais esperados" de 2022, a grande maioria são sequelas de franchises (eventualmente interessantes, não é isso que está em causa), como se a produção cinematográfica do planeta se reduzisse aos dez ou quinze títulos que a Marvel e a DC Comics lançam ao longo de um ano.

Claro que West Side Story é um filme fora de moda - no sentido mais literal, e também mais radical, da expressão: no plano da produção não encaixa em nenhum modelo que, atualmente, os grandes estúdios estejam a fabricar. Importa, por isso, perguntar se ver cinema, apreciar filmes, ter gosto pela diversidade da criação cinematográfica passou a ser uma atividade "clandestina". A saber: a filosofia economicista do cinema pretende transformar cada espectador numa marioneta sem pensamento?

Jornalista

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