Da dignidade da política

Na Grécia Antiga, a Política era entendida como a atividade nobre por excelência, no sentido em que compreendia as ações tendentes à concretização da melhor vida na Polis, na cidade. Apesar de então a "democracia" ser bastante imperfeita, por a participação na vida da cidade se encontrar restringida a uns poucos homens que formavam as elites locais, havia a noção de que os cidadãos envolvidos no processo de decisão política eram seres humanos dominados por uma grande dose de altruísmo, de dignidade, de probidade, dado que, no estrito cumprimento da Lei, só atendiam ao bem público, que prevalecia sobre os interesses particulares.

Hoje, a palavra Política perdeu parte da sua aura. Em parte, dizem, porque aqueles que a exercem se deixaram subjugar por interesses inconfessáveis. Os cidadãos olham por vezes os políticos com muita desconfiança, sem perceber claramente a origem e o porquê de determinadas decisões. Vai-se criando uma distância, um afastamento que não é nada saudável para a democracia e que vai minando os seus fundamentos, para regozijo de muitos que pretendem subverter os valores democráticos.

Para combater esta tendência é necessário jogar com uma maior proximidade entre eleitos e representados. Que os eleitos expliquem melhor a sua atuação e que os representados se envolvam mais na vida política e social, exigindo dos decisores políticos, mas com critério. Que os Políticos, no fundo, sejam vistos como os verdadeiros intérpretes do interesse comum, e não como alvos fáceis, como os culpados por tudo o que de mal sucede no mundo.

Ambos, eleitos e representados, devem honrar aqueles que no passado tudo fizeram para que a democracia fosse possível e plena. Foi um longo caminho desde Atenas até aqui. Mas este caminho não está terminado. Nada na sociedade contemporânea pode ser dado como adquirido. Urge trabalhar com insistência para manter a proximidade e o diálogo entre os que executam a Política e os que dela beneficiam.

Todos devemos sentir que fazemos parte de um projeto global comum e que ninguém deve ser colocado à margem. O dever cívico e a participação na coisa pública, seja do concelho, da região, do país, da Europa ou do mundo, têm que constituir uma interpelação para o conjunto das respetivas comunidades. Devem ser promovidos pelos diversos agentes políticos mas também interiorizados pelas populações.

Sem esquecer outros órgãos de poder, cuja jurisdição se faz sentir em territórios muito mais alargados, estou convicto que o Poder Local tem de assumir a este propósito um grande sentido de compromisso e de responsabilidade, procurando incentivar a participação do maior número de cidadãos na discussão pública. Ao fazermos isto estaremos certamente a contribuir para a dignificação da atividade política e para a formação de uma sociedade mais interveniente, consciente e adulta.

Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima

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