Contra a unicidade nacional

Viver em democracia pressupõe viver em permanente debate, em contínua controvérsia, num confronto incessante entre ideias, projetos e conceções do mundo.

Conhecemos todas as distorções e enviesamentos a que o debate político está sujeito, num espaço público de que sabemos os limites e as servidões, não só vindas das redes sociais, mas também dos condicionalismos e pressões que pesam sobre todos os meios de comunicação social. Mas não renunciamos à democracia, a este nosso comum horizonte de expectativas em que, como dizia Lincoln, os votos substituem as balas.

Em estados de crise e de perturbação é frequente aproveitar a aflição pública para tentar legitimar popularmente a suspensão dos meios democráticos de alternância no poder e a imposição de soluções autoritárias. A democracia seria assim um luxo para gozar nos momentos felizes e os momentos graves e sérios da vida necessitariam de governos fortes e sem oposição.

As uniões sagradas que as democracias construíram em tempo de guerra não suspenderam nunca o debate democrático: tanto assim que no final da guerra o grande vencedor Churchill foi derrotado nas eleições pela oposição socialista, que soube construir os fundamentos do Estado social no Reino Unido. Attlee, Bevan e Beveridge seriam hoje considerados pela nossa elite bem pensante como perigosos estatizantes pró-comunistas (assim os viam na época os conservadores como o liberal Hayek) e a social-democracia de então tinha que ver com Kautsky, Jaurès e Blum e não ainda com o Professor Cavaco Silva. Mas adiante.

Quando se pede ao Presidente da República um governo de exceção, está-se a pedir na verdade a suspensão do debate democrático. Não farei a injustiça aos promotores desta ideia, aliás rigorosamente inconstitucional, de os acusar de quererem instaurar uma ditadura. Mas repare-se no que diz um deles: quer um governo "sem questões ideológicas", "que não seja de direita nem de esquerda".

Nos termos de um antigo marxismo dogmático, só era científico o pensamento marxista-leninista, tudo o resto era ideologia. Atualmente, para os bem-pensantes, ideológico é defender quaisquer posições minimamente socialistas, científico significa defender posições claramente liberais. O liberalismo económico tornou-se, paradoxalmente, para esta nossa elite, a filosofia inultrapassável do nosso tempo, nos mesmos termos exatos em que Sartre qualificava nos anos 50 o materialismo dialético. O liberalismo económico é para os nossos bem-pensantes o ideário inultrapassável e indiscutível da época que vivemos.

Sabemos também de experiência (quarenta e oito anos!) que a ideia da superação da oposição direita-esquerda foi, é e será sempre um lugar-comum do pensamento de direita. Como para a direita não há alternativas de sociedade (TINA - There is no alternative -, lembram-se?), os confrontos políticos travam-se por motivos de mera racionalidade instrumental e não por diferenças nos modelos sociais. Sendo assim, a ideia de confrontar alternativas de fundo e modelos de sociedade nos debates políticos torna-se uma velharia sem préstimo neste século ladino e modernaço em que vivemos.

Ora, se os debates são meramente instrumentais, porque não afastá-los de nós nos tempos difíceis? Para quê a democracia? Não chegam sempre a pôr-se de acordo todas as pessoas de bom senso, como dizia uma personalidade acima mencionada?
Churchill, que a direita, e bem, tanto venera (mesmo aquela que tem alma de Chamberlain e se alia para governar com o primeiro diabo que lhe compre a alma), responderia simplesmente que a democracia não pode ser adiada, porque é por ela que lutamos.


Diplomata e escritor

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