Colin Powell (1937-2021) . O homem que podia ter evitado aquilo

Nas repúblicas antigas, um político era um ex-soldado e um soldado um futuro político. Nas democracias modernas, não é tanto assim, ainda que haja exceções. Colin Powell, nascido no Harlem, criado no Bronx e falecido nesta segunda-feira, aos 84 anos, era uma dessas exceções. Filho de pais jamaicanos, foi o primeiro afro-americano a servir no Conselho de Segurança Nacional, a chefiar o Estado-Maior e a liderar o Departamento de Estado norte-americano. A política externa e a Defesa dos Estados Unidos no século XX tiveram nele uma testemunha privilegiada, um agente ativo, uma influência marcante. Serviu três presidentes republicanos e foi cortejado e respeitado tanto por democratas como pelos conservadores. A sua imensa popularidade na década 1990, todavia, não perdurou ao ponto de protagonizar o seu legado. A política - ou a má política - contaminou a carreira de um herói militar e, mais do que isso - pior do que isso -, de uma figura profundamente querida junto da sociedade americana durante a maioria do seu percurso. Cumpriu duas comissões no Vietname, uma na guerra da Coreia e tornar-se-ia o general mais jovem do exército em 1979. Concebeu as bem-sucedidas operações no Panamá (1989) e no Golfo (1991), tendo sido os seus serenos briefings diários na televisão a conferirem-lhe notoriedade.

Como aponta a académica portuguesa Diana Soller, Powell "gostaria de ser recordado como um soldado, vocação a que dedicou mais de 30 anos da sua vida". Mas não deixa de ser "uma personagem trágica que, ao cumprir o seu papel como secretário de Estado [de W. Bush], ficou com uma reputação impecável manchada". "Ainda hoje tenho dúvidas se o fez por convicção pessoal ou dever político".

Autodefinindo-se como um solucionador de problemas e olhado como quebrador de barreiras raciais, Powell é, de facto, recordado por um discurso na assembleia das Nações Unidas sobre o Iraque quando a sua relação com a história foi, na verdade, mais complexa, mais preenchida. Quando é convidado para a administração Reagan, desempenha um papel essencial de aconselhamento nas negociações entre a Casa Branca e o Kremlin sobre desarmamento nuclear e o redesenhar da Europa. "Eu vi isso tudo acontecer. E fui feliz a vê-lo acontecer. A Cortina de Ferro a cair. A Alemanha reunificada. Um mundo novo a surgir", contou, nas celebrações do centenário de George Kennan, em 2004. Gorbachev, numa reunião em D.C. onde Powell estava à mesa, disse-lhe, com a compreensão de quem conhece a natureza militar: "Lamento, general. Vai ter de encontrar outro inimigo." Profecia essa, infelizmente, verificada.

Em 2003, George W. Bush decide invadir o Iraque e Colin Powell legitima a operação com uma intervenção nas Nações Unidas ainda hoje controversa e questionável. "Temos relatos em primeira mão de fábricas de armas biológicas", afirmou então o responsável máximo da diplomacia americana. Numa entrevista posterior, assume que o momento se transformaria num fardo para a vida. "Devia ter visto alguma coisa que não vi? Os meus instintos falharam-me? Talvez sim, não sei. É um peso que carrego, e que me coloca dúvidas todos os dias."

Powell, que havia contrariado o núcleo de Bush, forçando o presidente a pedir um ultimato à ONU, relembrava-o em sua defesa. "O Conselho de Segurança, à data, emitiu uma resolução que obrigava Saddam Hussein a revelar todas as informações sobre as suas armas de destruição maciça. Ele rejeitou. Dezasseis agências de inteligência afirmavam que havia armas de destruição maciça no Iraque. Todos os membros do congresso, Hillary Clinton, John Kerry, os 376 membros, concordaram que tal era inaceitável e votaram a favor do conflito." Mas o rosto, irremediavelmente, era ele, independentemente de abandonar a equipa de Bush para o segundo mandato. James A. Baker, outro peso-pesado do Partido Republicano, lamentaria na sua biografia autorizada que Powell teria sido "o único capaz de impedir aquilo de acontecer". E a guerra, "quando se pode evitar, evita-se". Mas não impediu.

"Eles tinham este pensamento, ‒ aceito chamar-lhe isso, nada mais, ‒ de que se conseguissem fazer do Iraque uma democracia todo o Médio Oriente iria mudar. Não faço ideia de como chegaram a essa conclusão", admitiria mais tarde o general. Bush filho nunca o protegeu ou escutou como Bush pai. E já na altura Powell lhe dissera o mesmo sobre o Iraque: "Quem o partir terá de o pagar." E assim foi.

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