Cavaco demitiu a oposição

Não comentarei as reações da área socialista ao artigo ontem publicado por Aníbal Cavaco Silva no semanário Expresso, na medida em que nenhuma delas aufere o mínimo de pertinência ou seriedade que o mereça. A esquerda que se julga proprietária de Abril e da democracia esquece-se que o político com maior apoio popular desde que Abril instaurou o regime democrático foi Cavaco Silva. Cometeu erros, como o próprio, mais tarde, reconheceu. E foi limitado pelas funções que, como Presidente, exerceu; falhando em travar a alegre marcha de José Sócrates para um precipício que há muito antecipava. "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas" é a frase que ficou para a história, mas os livros, incluindo as autobiografias políticas do antigo primeiro-ministro e chefe de Estado, revelam ponderações, encruzilhadas e, para quem ler com atenção, até frustrações. Cavaco Silva é mais humano do que o que os seus detratores escarnecem e igualmente mais político do que o próprio alguma vez admitiu. É, em duas palavras, um chefe democrático. E a sua página de opinião escrita neste fim de semana deve ser lida como assinada por tal.

Que Cavaco arrase o governo do Partido Socialista não surpreende ninguém. Que demonstre uma preocupação aguda com o atraso português, a nossa falta de crescimento e o compare, em termos relativos, aos países do alargamento que nos foram ultrapassando, também não. Que, como social-democrata, denuncie o aumento das desigualdades, das famílias em situação de pobreza e da degradação dos serviços públicos, idem. Nesta sua ativa vida pós-presidencial, as advertências a esses dois pontos têm surgido sob a forma de entrevistas, livros e apresentações.

Estando o país a dois anos de legislativas e em rescaldo de eleições locais, não se pode dizer que o antigo líder do PSD esteja exatamente a entrar em campanha. O tempo do seu artigo não é esse, mas antes outro. Dos 34 parágrafos do seu texto, há um de ferocidade inédita e impacto inevitável. Cavaco Silva, o político mais bem-sucedido do centro-direita em 47 anos de democracia, demitiu as atuais lideranças da oposição. Fê-lo em quatro linhas, de forma indesmentível, e que aqui cito: "Desde logo uma oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente de denúncia de erros, omissões e atitudes eticamente reprováveis do governo." Dito de outro modo: Cavaco apenas se sente obrigado a confrontar a situação do país devido à ausência de vozes que o façam. Nem Rui Rio nem Francisco Rodrigues dos Santos estão habilitados a fazê-lo.

Não estando nós à beira de legislativas e indo António Costa a meio do seu segundo mandato, uma coisa é certa e mais imediata: nos próximos dois meses, PSD e CDS decidirão se mantêm ou substituem as suas lideranças. Na opinião de Aníbal Cavaco Silva, a escolha é clara. Os incumbentes não servem. O apelo do Presidente não é, em exclusivo, à mudança de quem nos governa, mas, em concreto, à mudança de quem nos quer governar. É essa a mensagem de Cavaco: para haver novo ciclo no país é preciso renovar o ciclo da oposição.

E se a direita não ganha uma eleição há seis anos, talvez fizesse bem em escutar aquele que, à frente de um partido, nunca perdeu uma.

Rio e Chicão, por outro lado, não têm feito outra coisa.

Colunista

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