Bolsonaro uniu o Brasil

Bolsonaro é acusado, justamente, de muitas coisas. De, com desinformação permanente sobre gravidade e alcance da pandemia, vacinas, máscaras, distanciamento e o delírio do tratamento precoce, contribuir para o número absurdo de casos e de mortes por coronavírus no Brasil.

De, estimulando manifestações contra os outros poderes e as outras esferas do executivo, elogiando a ditadura militar de 1964-1985 no país e regimes semelhantes nas nações vizinhas e suspeitando do sistema de voto eletrónico brasileiro, o mais rápido e auditado do mundo, desprezar a democracia e as instituições.

De, ao minar as relações com a Mercosul, com líderes sul-americanos avulsos, como Alberto Fernández, com a União Europeia, com líderes europeus avulsos, como Macron, com o mundo árabe, por prometer abrir embaixada em Jerusalém, com Israel, por não ter força para cumprir a promessa de abrir embaixada em Jerusalém, com a ONU, com a OMS e com o maior cliente do agronegócio brasileiro, a China, cuja vacina contra o coronavírus apequenou para agradar Washington, que agora, sob Biden, o despreza, fazer do Brasil um pária internacional.

De, ao desmatar a Amazónia, ao queimar o Pantanal, ao esvaziar os órgãos estatais de controlo e ao perseguir os povos indígenas, destruir o meio ambiente.

De, ao vender cargos no executivo a deputados para se proteger do impeachment, se ter aliado à podre, oportunista e clientelista política de Brasília que prometera combater.

De, ao ter aparelhado polícias, tribunais e órgãos de inteligência para salvar o primogénito da cadeia por desvio de dinheiro e organização criminosa, haver cedido à corrupção, conforme constatação do seu ex-superministro Sérgio Moro.

De, ao intervir na Petrobras e noutras estatais, substituindo técnicos por generais, aterrorizar o mercado que, ingenuamente, o via como "um liberal".

De, ao ver o preço do arroz e do feijão, da gasolina e do dólar, baterem no teto sob o seu consulado, deteriorar a vida dos compatriotas.

De, ao decidir armar a população só para agradar aos fabricantes de armas e às milícias que aterrorizam as grandes cidades do país, ignorar os milhões de mortos anuais no Brasil por "motivo fútil".

De, ao insultar a universidade, a ciência, as artes, a cultura, o jornalismo, enfim, qualquer vestígio de vida inteligente, procurar estupidificar o país.

Pode-se acusar Bolsonaro de tudo isso e muito mais - mas não se pode acusá-lo, como se tem feito, de dividir o Brasil.

Lula, o líder espiritual do PT, considera Bolsonaro "um perigo" para o país. Fernando Henrique Cardoso, father figure do PSDB e némesis político do antigo sindicalista, chama-o de "perigoso".

Representante do partido mais à esquerda do parlamento, Guilherme Boulos, do PSol, acha Bolsonaro "uma farsa". Rodrigo Maia, do DEM, uma das forças mais à direita no Congresso, descreve-o como "acidente da história".

Dilma Rousseff classifica-o de "incendiário". Miguel Reale Júnior, o subscritor do impeachment dela, alcunha-o de "BolsoNero".

Jean Wyllys, um dos primeiros parlamentares a entrar em choque com Bolsonaro, definia-o como "burro" e "corrupto", em 2017. A deputada Joice Hasselmann, ultrabolsonarista nas últimas eleições, considera-o agora um "limitado" preocupado apenas em "proteger o filho corrupto".

O Brasil aprendeu, sob este governo, a distinguir disputa esquerda-direita de disputa civilização-barbárie. É esse o único legado de Bolsonaro.

Jornalista

Correspondente em São Paulo

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