Bob Dole (1923-2021): Já não estamos no Kansas, Dorothy

No final da década de noventa, um conservador americano perdeu a corrida para a presidência e ficou desempregado. Havia deixado o cargo de senador, que fora seu por mais de três décadas, e ficara sem nada que fazer. Antes de decidir avançar com a candidatura, dissera que "ou ia para a Casa Branca ou ia para casa". Os eleitores encaminharam-no para a segunda hipótese. Aos 73 anos, uma proposta invulgar surgiu e uma resposta igualmente excêntrica correspondeu-lhe: Bob Dole, com meio século de vida dedicada ao serviço público, ex-líder da bancada republicana, ex-candidato do partido à Sala Oval e herói da Segunda Guerra seria o rosto da primeira campanha publicitária nos Estados Unidos à miraculosa solução ainda hoje conhecida por Viagra.

Numa entrevista a Jay Leno, em 2002, desmentiria ao apresentador os alegados efeitos secundários relacionados com cegueira no uso do medicamento. "A minha visão está perfeita, Jay. Acredita". A sua longevidade, o seu sentido de humor e a sua independência foram os traços marcantes de Dole, nascido no Kansas em 1923 e falecido no passado domingo, com 98 anos.

Criado durante a Grande Depressão, cresceu com quatro irmãos na cave de uma pequena casa de tijolo, na qual os pais alugavam o rés-do-chão para pouparem dinheiro. Atleta universitário, abandonaria a faculdade no seu segundo ano para alistar-se no exército em 1942, chegando à patente de tenente. Seria ferido em combate em Itália, contra tropas alemãs, perdendo um ombro, um rim e a sensibilidade em todo o braço direito. A partir de então, ganharia o hábito de levar uma caneta entre os dedos imobilizados para dar a entender que preferia ser cumprimentado com a mão esquerda. Voltaria à escola para se graduar em Direito, estudando através de gravações das aulas, já que estava incapaz de tirar notas. Depois de uma breve passagem pela advocacia, concorre à assembleia estadual do Kansas e é eleito. Daí à Câmara dos Representantes não demorou nada. E do congresso ao Senado ainda menos. As suas origens modestas, a sua consciência social e o heroico serviço militar faziam dele um ativo para os republicanos. Richard Nixon, que nunca cessou de defender, foi o seu primeiro padrinho. Divorciar-se-ia e tornaria a casar com um quadro do partido, mais tarde senadora pelo New Hampshire.

No Capitólio, dedicar-se-ia às comissões de Orçamento, Impostos e Política Externa. Nas relações internacionais, cultivava pontes com o partido adversário, tendo a questão da Bósnia sido um bom exemplo disso. Nas reformas da Segurança Social e na legislação para deficientes foi pioneiro entre a direita norte-americana. Na era do reaganismo manifestou-se repetidamente a favor de aumentos de impostos, contrariando a nomenclatura do partido, e propondo a distribuição de food stamps em situações de pobreza, que conhecia como poucos.

Em 1994, quando Newt Gingrich toma conta do congresso e força government shutdowns sucessivos a Bill Clinton, Bob Dole não se deslumbra com o colega. "O gabinete do Newt tem quatro salas grandes e uma pequena. As primeiras quatro têm uma tabuleta que diz "Ideias do Newt". A pequena tem uma que diz "Ideias boas do Newt", troçaria em público. Longe da euforia republicana em torno das eleições intercalares, acrescentaria: "Se soubéssemos que íamos ganhar, teríamos convidado candidatos melhores". Em jeito de piada autodepreciativa, um clássico seu, comentaria com outro senador: "Se estiveres a passear sem nada que fazer e o zoo estiver fechado, passa pelo Capitólio. É a mesma experiência e não tens de pagar".

Foi, até hoje, o único político nos EUA a concorrer duas vezes para cargos nacionais sem sucesso em ambas as tentativas. A primeira, como candidato a vice de Gerald Ford contra Jimmy Carter; a segunda, como adversário na recandidatura de Bill Clinton. Quando o presidente reeleito o condecora com a Medalha da Liberdade, precisamente na véspera da segunda tomada de posse, Dole agradece, citando o juramento presidencial: "Eu, Robert Joseph Dole, juro solenemente fazer cumprir... Ah, desculpem, discurso errado". E a sala desatou a rir. Era um derrotado gracioso. E, neste tempo ou noutro, uma figura irrepetível.


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