As virtudes da falta de excitação

Perguntada, há vários anos, por um apresentador de televisão sobre qual seria a maior virtude alemã, Angela Merkel respondeu "janelas bem vedadas". Esta foi uma das muitas histórias da chanceler recordadas nas últimas semanas, e talvez seja uma das melhores. Merkel foi como uma janela alemã bem vedada. Nada inspiradora, muito eficiente. Essencial para conter crises e repor a normalidade, sem nunca entusiasmar. Poucos políticos de longa duração terão sido, ao mesmo tempo, tanto e tão pouco.

A improbabilidade da sua chegada ao poder era imensa. Mulher, criada por um pastor luterano que decidiu ir com a família salvar almas para a Alemanha dita Democrática, formada em ciências e razoavelmente desconsiderada pelo enorme Helmut Kohl que lhe chamava "a rapariguinha" e lhe deu um ministério menor, poucos a viram chegar. E, no entanto, matou Kohl quando os escândalos financeiros o tornaram absolutamente tóxico, ganhou o partido e venceu as eleições alemãs quatro vezes, sendo chanceler 16 anos seguidos.

Os críticos recordam, com razão, que na política externa foi fraca com quem deveria ter sido mais forte, Putin; foi comercial com quem deveria ter sido ideológica, a China (nas viagens oficiais chegavam a seguir três aviões para caber toda a comitiva de empresários ansiosos por fazer negócios); e na política interna deixa um país pouco preparado para a transição digital e menos ainda para a transição verde. Tudo isso é verdade, e o que disse sobre o Ocidente numa entrevista ao Financial Times, que era "um conceito geográfico" será dos seus maiores pecados. Não admira que Obama lhe tenha chamado líder do Mundo Livre, quando Trump foi eleito, e Merkel não tenha apreciado o epíteto. Não quis e provavelmente não teria sabido ser.

Criticam-lhe, ainda, a falta de firmeza com os cada vez menos democráticos Estados membros da Europa central e de leste, como a Polónia e a Hungria, e, sobretudo, a falta de uma grande visão para a Europa.

Angela Merkel provavelmente pensará que fez sempre o que tinha de fazer e o que podia fazer. Como uma janela que veda eficazmente. Salvou a Europa de se estremar e ruir, na crise das dívidas soberanas, não escolhendo o lado dos que pediam clemência com os endividados nem o dos que exigiam o castigo dos perdulários. Assim como conseguiu uma vacina para a crise económica da pandemia, assegurando a possibilidade do Next Generation EU sem aproveitar para fazer toda uma nova capacidade orçamental federal, inaceitável para muitos. Com o Leste, que conhece bem, terá certamente tido presente que na sua Alemanha também é daquele lado que os extremados Die Linke e AFD têm mais votos. Entre acomodar ou desintegrar, preferiu manter a união, em ambos os casos.

Um dos maiores desiludidos de Merkel é Emmanuel Macron. Enquanto o presidente francês declamava grandes visões, a chanceler resolvia pequenos e não tão pequenos problemas. Macron apela a um projecto mobilizador, a uma Europa que entusiasme. E ganhou as presidenciais francesas com a coragem de ser europeísta contra a corrente dominante à época por ali. Merkel não excita ninguém. A questão, porém, é que os projectos políticos pragmáticos podem ser maçadores, mas tendem a ser eficazes; os projectos políticos excitantes, tendem a entusiasmar uns, antagonizar outros e a acabar mal.

Olaf Scholz será, com quase toda a probabilidade, o sucessor. Tem a mesma espécie de virtudes luteranas dos alemães do norte. Com sorte, será pouco mais do que uma janela bem vedada. Uma versão mais moderna, mas não muito excitante (nem desconexa, como era Laschet, o sucessor oficial). Os alemães parecem apreciar. Os europeus, provavelmente também.

Consultor em assuntos europeus

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