As duas faces de Napoleão

A pandemia atenuou a reflexão europeia sobre o legado de Napoleão no duplo centenário da sua morte, que se cumpriu no passado dia 5 de maio. Os franceses continuam a colocar o imperador no topo das preferências, ao lado de Luís XIV, de De Gaulle e de Joana d'Arc. Mas a aura de Napoleão é universal e complexa. Diria que talvez tenha sido Beethoven quem melhor tenha surpreendido as duas faces que convivem e se entrechocam na sua ação histórica. O grande compositor já tinha concluído a sua 3.ª Sinfonia, quando soube que Napoleão se havia coroado imperador em dezembro de 1804. Temos testemunhos escritos que ele pensara dedicar a sinfonia Heroica a Napoleão, tendo, num ato de fúria, rasgado essa dedicatória. Beethoven admirara o general republicano, defensor e difusor das ideias da Revolução Francesa. Detestava, contudo, o imperador de um Estado expansionista, que foi dos primeiros a sacrificar no altar do nacionalismo.

Napoleão assumiu, de facto e em simultâneo, os dois papéis. Até o nosso Almeida Garrett, no exílio de Londres, em 1830, profere elogios aos soldados de Napoleão, que obrigaram a sua família a refugiar-se nos Açores por causa das três destruidoras invasões francesas. Dizia Garrett que esses soldados transportavam a "civilização" (para ele, sinónimo de liberdade) como "contrabando". E há muita verdade nisso. Eric Hobsbawm, no seu clássico livro A Idade da Revolução (1962), oferece um mapa impressionante da influência mundial das leis napoleónicas, onde se incluem o Código Civil (1804), o Código de Processo Civil (1807), o Código Comercial (1807), o Código Penal (1810), entre outros. Na Polónia ou na Baviera, na Holanda ou em Espanha e Portugal, mesmo na Argentina ou no México, passando pelo Egito, a lei napoleónica inspirou mais direitos e liberdades a milhões de seres humanos.

Mas o "espírito do mundo a cavalo" (die Weltseele auf einem Pferde), como lhe chamou Hegel, ao vê-lo a entrar em Jena depois de derrotar os prussianos na batalha com o nome dessa cidade, foi também um guerreiro implacável e um reformador militar. Como escreveu Clausewitz, que contra ele combateu, Napoleão fez entrar definitivamente os povos e o ardor patriótico nos campos de batalha, que antes eram apenas assunto de reis, ministros e mercenários. A ele se aplica esta espécie de definição química de Arnold S. Toynbee: "O espírito do nacionalismo é a alegre fermentação do vinho da democracia nos velhos odres do tribalismo." Na verdade, o expansionismo napoleónico procurou resolver pelas armas o problema das fomes crónicas da superpopulação francesa, cujo desespero corrosivo ajudou ao fracasso político da Revolução. No Censo de 1800, a França contava 29 milhões de almas. Uma demografia gigante, se comparada com a rival britânica que, no Censo de 1801, contava apenas 10, 5 milhões de habitantes. Hoje, França e Reino Unido têm exatamente a mesma população... Napoleão confirma também o enigma de muitos líderes nacionalistas. Eles são marginais das nações de que se tornam chefes carismáticos. A lista é impressionante: o líder nacionalista irlandês De Valera nasceu em Nova Iorque; nunca a Rússia foi tão poderosa do que quando foi governada por uma princesa alemã (Catarina II) ou por um georgiano sem escrúpulos (Estaline); o mesmo para Franco (um galego) e a Espanha; ou Hitler (austríaco) e a Alemanha. Napoleão nasceu em Ajaccio, um ano após a sua Córsega natal ter sido conquistada pelas baionetas francesas.

Professor universitário

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