Antes e depois da pandemia

Depois de cada uma das Guerras Mundiais que atingiram a redefinição do globalismo ocidentalista, o futuro imprevisível orientou os estadistas que, tendo vencido o conflito, assumiram a reconstrução desse futuro: aconteceu que com a Sociedade das Nações, que se mostrou esgotada perante o desatendido brilhante discurso do Negus da Etiópia, a pedir a intervenção contra a Itália cujo fascismo ambicionava partilhar o colonialismo: depois da breve paz, a Segunda Guerra Mundial, que inspirou o novo acolhimento da pluralidade religiosa, étnica, cultural, e política, que esquecia o castigo da Torre de Babel, a organização do globo, com expressão na ONU e na UNESCO, não impediu que a própria Europa ficasse dividida, até à queda do Muro de Berlim que, aproximando as metades da Europa, não conseguiu que a geral cooperatividade impedisse que o pluralismo de grupos acompanhasse também nela as ambições dos emergentes, sempre com ameaças ou violações da paz, até que a pandemia atacou esse todo plural de uma ameaça que não distingue etnias, crenças, regimes ou ambições.

É cada vez mais evidente, em face das análises, das experiências, da luta pelo saber, da coragem de enfrentar a ameaça, que ao mesmo tempo coexistam o apego ao regime político e global que todavia já se vai chamando o antigamente, neste caso imaginando que ou haverá regresso ao mundo antigo ou antes se vai ser necessário criar novo regime, de tal modo que cresce a incerteza, e por vezes a amargura, de não haver bússola para outro futuro possível e a definir. Atendendo ao realismo pessimista de Gramsci, é de temer que os perigos produzam "os fenómenos envolvidos mais variáveis". Com o vírus como que a conduzir (e não se descortina a obediência a qual vontade) o ataque unitário da humanidade, os meios estão a ser todos insuficientes: o Reino Unido em risco de perder a unidade, a França, que já se considerou e perdeu ser a luz do mundo, a Itália, a Bélgica, a China, a Rússia, os EUA, os Estados peninsulares como Portugal e Espanha, a aproximarem-se do pior normativismo, e com os povos que receberam o fim do colonialismo, todos sem dar adesão plausível ao anúncio do jovem presidente da França Emmanuel Macron ao propor, em meados do acabado ano de 2020, que "tiremos todas as consequências, em tempo assumido, quando se trata da nossa organização".

Não é que a investigação científica e os seus responsáveis tenham descurado a intervenção da investigação e ordem, aceitando os perigos sem desfalecer. Mas se a envelhecida ordem política os acompanha, é com a evidente intenção de controlar a defesa, mas sem conseguir a procurada esperança de reformular o mundo que vai perdendo a forma. Positivamente, não podendo ignorar que a pandemia vai impor mudanças de ordem do passado, sobretudo dos povos e seu território, todavia mostrando que apenas estão a tentar manter-se a salvaguarda de valores desse passado.

A inquietação dos governantes com países diferentes na sua origem, ou a busca de saber em centros de antigos adversários, como se passa com os milhares de chineses que procuram formação nas melhores universidades americanas, parece neste caso seguro que não é da desordem política desse país que se informam, mas da ordem que terá perdido, incluindo o poder que pretendeu manter. A resposta à crise sanitária, na gravidade desta antiga sede ocidental do mundo, parece apenas agora reparar, tentando repor a solidariedade esquecida para a salvaguarda dos valores que foram o eixo da roda deste Ocidente abalado, e que em grande parte os ocidentalizados consideraram violência.

O facto, que parece crescer em evidência, é que as lideranças regionais, como aparentemente está a passar-se com a Arábia Saudita, o Irão, e até a Turquia, são a realidade mais inquietante quanto aos objetivos internos da ONU e da UNESCO. Neste Ocidente considerado como o grande agressor do passado, se a Europa iniciou a unidade que levou séculos a imaginar, é exigível que mantenha ou finalmente crie a unidade de ação para um tempo que viverá a queda de todos os muros, quer defensivos ou identificadores. Não é possível deixar de reconhecer a intervenção equivocada de dirigentes que supuseram estar apoiados num passado seguro, e que o seu futuro é improvável, como se passou com a última presidência dos EUA, porque a adoção do ataque ao Senado ameaçou ter uma suficientemente aparente crença implantada, o facto de os vencidos na eleição presidencial não reconhecerem a legalidade e manterem a ameaça da correção pela violência, sem moderação. Renova-se a pergunta inquietante, e não é a primeira vez na história, se estamos perante uma nação plural em opiniões, se são duas nações que só avaliam o passado a benefício de inventário. Não é apropriado esquecer que não há futuro sem solidariedade, que a circunstância exigiu global. O processo histórico dos EUA foi definido (Thomas Frank) como "para nós os americanos". É excessivamente reprovável assumir que está em perigo a assumida divisão nacional, e a paz global, consequência de um procedimento ambicioso e condenável.

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