Ainda não aprendemos a quantificar incertezas

Em fevereiro de 2021, quando Portugal reagiu tarde ao surgimento no país da chamada variante britânica do SARS-CoV-2, escrevi no DN: "Fica a sensação de que o governo ouve muitos especialistas, de grande qualidade, mas está a faltar um verdadeiro aconselhamento científico estruturado, através de um sistema transparente e independente que permita sintetizar a informação, as várias opiniões e quantificar as incertezas".

Infelizmente, quase um ano depois, sou forçada a concluir que ainda não aprendemos a quantificar as incertezas, a ser transparentes e, sobretudo, capazes de chegar a sínteses suficientemente concretas para nos pouparem a polémicas como a que marcou o final da semana passada, a propósito da vacinação das crianças dos cinco aos onze anos.

Mais do que a controvérsia em torno da decisão inicial da Direcção-Geral de Saúde de não divulgar o parecer da Comissão Técnica de Vacinação Contra a COVID-19 (CTVC), preocupou-me o que li no parecer em si, quando este foi finalmente divulgado menos de 24 horas depois da recusa inicial. Porque o que lá está ajuda a perceber a hesitação das autoridades de saúde em partilharem aquela informação.

Não por falta de argumentos científicos a favor da vacinação. Esses estão todos presentes no documento: a segurança e eficácia das vacinas naquelas faixas etárias; a previsível redução de dezenas de milhares de casos de covid-19 e de algumas dezenas de internamentos de crianças, incluindo em cuidados intensivos, não esquecendo a prevenção de problemas de saúde de longo prazo; os benefícios psicossociais para as crianças; a proteção acrescida para a comunidade em geral.

O problema daquele documento é a ausência de uma síntese coerente. O facto de, no mesmo parecer, se aprovar inequivocamente a vacinação de crianças, aconselhando a medida, ao mesmo tempo que se admite que "poderá ser prudente aguardar por mais evidência científica antes de ser tomada uma decisão final de vacinação universal deste grupo etário".

Isto não sucede por culpa dos especialistas independentes que contribuíram para o relatório, cuja competência e isenção estão acima de quaisquer suspeitas. E que, naturalmente, têm visões não necessariamente coincidentes. Acontece porque ainda não entendemos por inteiro como funciona - ou deve funcionar - o aconselhamento científico.

Está a faltar, neste processo, como em muitos outros no passado, alguém, alguma entidade ou grupo, que sintetize as diferentes posições e seja capaz de, em diálogo com os vários especialistas, as transformar em contributos concretos para quem tem de decidir.

O objetivo de um relatório desta natureza não é apresentar, com igualdade de tratamento, todas as diferentes perspetivas sobre um mesmo tema, incluindo perspetivas inconciliáveis sobre as ações a tomar. O objetivo é identificar os pontos em que existe evidência científica abundante, bem como as lacunas de conhecimento, e daí extrair recomendações claras. Quer para os diferentes especialistas, quer para os decisores políticos, quer para os cidadãos em geral.

Como também já escrevi, o aconselhamento científico não se substitui à decisão política, na qual têm de ser ponderados outros fatores, como os aspetos éticos e os impactos económicos e sociais das medidas. Mas também não pode resumir-se a um mero colecionar de opiniões. Dessas já temos muitas, talvez até em excesso.

Eurodeputada

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