A tribalização do espaço público

O conceito de espaço público (doravante EP) tem assumido várias designações e metamorfoses ao longo do tempo. Nos últimos 3 séculos - de Kant a John Rawls, passando por Hannah Arendt e Habermas - o seu significado tem sido modulado e sofisticado. Mas o que lhe é essencial mantém-se.

Desde o EP como praça urbana física, a ágora ateniense da antiga cidade-estado onde os cidadãos se reuniam para deliberar, até à constelação multimédia contemporânea por onde passa o debate sobre os temas de interesse comum, o EP é a instância onde se forja a opinião dominante que nos lugares eleitorais próprios se transformará em decisões relevantes para o futuro das políticas públicas.

O EP que tem acompanhado a modernidade foi modelado pela expansão da imprensa. Os jornais, que aceleraram exponencialmente a sua expansão a partir do século XVIII, libertaram o espaço público da sua microescala anterior e substituíram a voz do orador pela reflexão e pela leitura. Não surpreende que para poder aceder ao EP a alfabetização e a escolaridade se tenham transformado em requisitos obrigatórios. É claro que no século XX, a rádio e a televisão alargaram e complicaram a compreensão e a gestão do EP. É nessa altura, aliás, que ocorre a rápida transferência para a esfera da comunicação pública dos avanços no conhecimento psicológico. E.L. Bernays (1891-1995), orgulhoso sobrinho de Freud e autor de um livro fundamental (Propaganda, 1928), escreveu acerca da manipulação das massas no EP: "Aqueles que controlam este oculto mecanismo da sociedade constituem um governo invisível". Em 1948, quando G. Orwell publicou a sua ficção distópica, 1984, os efeitos demolidores da manipulação do EP nas sociedades totalitárias já eram conhecidos de toda a gente.

O século XXI trouxe uma radical revolução no EP. Tanto no seu hardware (a digitalização entrou em rota de colisão com a imprensa e os audiovisuais), como no seu software (as suas regras de funcionamento são dinâmicas e escapam tanto à regulação pública como à auto-regulação, sempre protelada pelas empresas). As redes sociais vivem uma adolescência turbulenta (o Facebook de M. Zuckerberg foi criado em 2003!), contudo, como ficou provado com o caso Cambridge Analytica (2014), as redes podem transformar-se em mercados ilegais de dados pessoais, que depois são usados para manipulação política, como ocorreu nas campanhas do Brexit e de Trump (2016). Mas o mais importante parece-me ser a mudança total de cartografia que está a ocorrer no EP.

Antes deste advento digital, mesmo as formas totalitárias de propaganda procuravam amarrar os indivíduos a uma concepção de mundo comum, por muito absurdo que ele fosse. Contudo, hoje, as redes sociais, turbinadas pela inteligência artificial (IA), promovem a criação de uma pluralidade (de visões) de mundos, concorrentes e conflituantes. Os mecanismos de redundância intensificada, típicos da IA, criam a ilusão de certeza, e um sentimento de hostilidade contra quem pense de modo diferente. Numa altura em que mais do que nunca teríamos de mobilizar o espaço público no debate para resgatar o nosso único mundo comum da sua actual rota de destruição, eis que a sociedade se fragmenta e tribaliza. Na impossibilidade de estarmos à altura dos desafios do nosso único mundo real, protegemo-nos na consoladora bolha de um mundo ficcional partilhado e fechamos a porta. Esperando, talvez, que a crença seja mais forte do que a verdade.


Professor universitário

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