A questão russa dos europeus

Angela Merkel e Emanuel Macron propuseram uma cimeira europeia com a Rússia e perderam. Mais do que da ideia em si, os restantes líderes parecem ter duvidado das motivações e suspeitado das intenções.

Ou foram Merkel e Macron que não perceberam Biden, ou foram os restantes estados membros, sobretudo os bálticos, os de leste e alguns do norte da Europa, que acharam que o que alemães e franceses queriam era exibir autonomia, e fazer negócios com os russos e não uma aproximação a pensar numa estratégia para gerir a Rússia enquanto se dá prioridade a conter a China.

Biden reuniu com Putin depois de uma escalda verbal (chegou a chamar-lhe assassino), de reunir o Ocidente (o G7, a NATO e uma cimeira União Europeia (UE) / Estados Unidos da América (EUA)) e de deixar claras duas coisas: o problema americano é a China; se os russos não ultrapassarem certas linhas vermelhas, podemos ser inimigos como antes. Ou seja, a América indicou o que queria, o que não aceitava e o que estava disposta a dar e porquê. E tem poder para fazer diferente. À iniciativa de Merkel e Macron faltou tudo isso.

Merkel está de saída, perde influência e tanto na abordagem à China (insistência no acordo comercial), como na relação com a Rússia (insistência no Nordstream 2 e súbita proposta de uma cimeira depois da de Biden e Putin), parece mais preocupada com o comércio do que com a segurança. É, pelo menos, disso que os parceiros europeus suspeitam. Macron não inspira mais. Na política externa, o seu europeísmo soa demasiado a uma ambição da grandeza da França por interposta instituição. E a problemas internos. Nem um nem outro são vistos pelos restantes como estando orientados pelo interesse europeu, em geral, e pelos perigos para os Estados membros mais expostos à ameaça russa, em particular.

Merkel e Macron parecem ter acreditado que o interesse comercial de uns, os alemães, e ambição de poder de outros, os franceses, seria suficiente para uma relação autónoma, equilibrada e correspondida com a Rússia. Pelo contrário, bálticos, de Leste e alguns nórdicos parecem ter visto nesta aproximação não um exercício de poder sobre a forma de diplomacia e promessa de negociações, mas antes uma rendição comercial que poria uns, os bálticos e os de leste, desprotegidos face a Moscovo, e outros, os do norte da Europa, mais distantes da América, coisa que não querem. É preciso não esquecer que os países do norte da Europa são hoje a face visível do que era antigamente o Reino Unido na União Europeia.

Seja como for, nem a proposta de cimeira, nem a sua recusa, resolvem o problema de fundo. A Europa pode recusar falar com Rússia? Ser pragmática e rendida ao comércio? Ou, como os americanos, vocalmente dura mas disponível para fazer acordos, desde que Putin e Moscovo respeitem linhas vermelhas? E com que poder?

A Rússia é o maior e o mais desestabilizador e ameaçador vizinho da UE. Os Estados Unidos de Biden optaram por oferecer uma relação, estabelecendo linhas vermelhas. Sendo que, detalhe relevante, a Rússia sabe que elas podem ter algum significado, mesmo que ninguém espere uma intervenção militar. A Europa não tem nada disso. Nem linhas vermelhas comuns, nem como as impor. E, mais importante, não pensa a questão em termos europeus, mas antes como 27 questões nacionais. Do mal, o menos. Ainda bem que estas coisas não se decidem por maioria.

Consultor em assuntos europeus

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