A minha é maior do que a tua

Há coisas da natureza humana que teimam em não mudar. O novo eldorado é a vacina. E a candonga que por aí vai, a caseira e a transnacional, mina um dos principais fatores que podem conduzir à saída deste poço escuro para onde nos atira a pandemia: é a confiança - desde logo na vacina, mas também nas instituições.

Os noticiários dão-nos conta da candonga caseira, de gente que passa à frente, que dá o golpe na bicha, ao arrepio de um plano de vacinação que deveria ser mais claro e transparente, ao menos na definição de prioridades: primeiro os mais vulneráveis, depois os mais expostos. Um plano de acordo com critérios científicos, éticos e de equidade. Um plano rigoroso na execução, que não é, e sem preconceitos ou a má consciência dos decisores políticos.

Mundo fora, a corrida começara antes e de forma auspiciosa. Nunca tantos concorrentes colaboraram de forma tão aberta e frequente. Nunca tantos candidatos avançaram para testes de eficácia em grande escala. Nunca governos, indústria, academia e organizações sem fins lucrativos gastaram tanto dinheiro, músculo e inteligência na mesma doença infecciosa, em tão curto prazo.

Em menos de nove meses, a comunidade científica internacional e as autoridades sanitárias tinham alcançado, a uma velocidade sem precedentes, meia dúzia de soluções químicas eficazes para combater a praga deste século.

As vacinas aí estão: Pfizer, Moderna e AstraZeneca, mas também a Sputnik V e a Sinovac. A americana, as europeias, a russa e a chinesa. E o que vemos, ouvimos e lemos é a tendência para a velha candonga, a versão renovada da guerra fria, agora em formato de frasquinhos com líquido antivírus: a minha é melhor do que a tua, a minha é mais barata, a minha chega mais depressa.

Por entre a sórdida contagem de baixas, não falta entre os observadores da cena internacional quem fale na nova geopolítica da vacina. É certo que a União Europeia revelou capacidade competitiva para negociar em bloco o preço do medicamento. Mas não está demonstrado que saiba competir na dimensão geopolítica, assegurando aos seus cidadãos o acesso rápido à vacina. Além de que para a maioria destes não interessa o passaporte da vacina, desde que venha depressa, e que cumpra.

Entendamo-nos: a guerra da vacina é uma questão de poder, mais que de mercado; da forte competição entre Estados e grandes multinacionais, já convertidas em players globais com capacidade para subjugar aqueles. Até a solidariedade vai jogar como fator geopolítico quando, ao doar doses, medidas a pacote, alguns países alcançarem novas alianças estratégicas.

E no meio da luta está a Europa, neste tempo de presidência portuguesa... a correr pela sua própria sobrevivência, nos mínimos e de rastos, enquanto projeto de unidade política, de paz e solidariedade. Mas é aqui que estamos. E ou procuramos ir juntos e mais solidários, ou não saímos do poço.

A confiança na vacina e nas instituições é essencial para ganharmos este lance maior nas nossas vidas. A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas.


Jornalista

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