A lista telefónica da democracia

Num tempo em que cada vez mais se fala de transparência e sindicância, o percurso das instituições públicas portuguesas é no sentido oposto: encontrar um número de telefone geral pode ser impossível, chegar à fala com assessores de imprensa uma odisseia. Que saudade das listas telefónicas.

Hoje chamar-se-lhe-ia doxing, mas em tempos quando queríamos saber o número de telefone e a morada de alguém agarrávamos num calhamaço chamado "lista telefónica" e procurávamos pelo nome. Havia até a possibilidade de ligarmos para "as informações" da operadora telefónica e, com base numa morada, obtermos não só o número como o nome de quem habitava naquele local. Parece incrível mas estava tudo ali, numa devassa que deliciava os stalkers (muito antes de termos aprendido o que é um stalker) e que hoje levaria a Comissão Nacional de Proteção de Dados a rasgar as vestes.

Por esse mesmo motivo, a lista telefónica era inseparável dos jornalistas. Aprendi isso estagiária: esses calhamaços, que procurava e traficava com a sofreguidão de uma junkie, eram os meus melhores amigos. Durante duas décadas, tinha-os em cima da secretária, com o meu nome escrito para ninguém mos roubar.

Neles se encontravam, surpreendentemente, listados os nomes de pessoas "notáveis", para casa de quem se podia ligar sem dificuldade (e sem ninguém perguntar "como é que conseguiu o meu número?"); naquelas colunas de letras minúsculas, de queimar pestanas, podíamos iniciar uma reportagem a partir de um apelido, do nome de uma rua, de um lugar.

Queríamos testemunhas de um dado facto ou procurávamos uma pessoa? Ligávamos para a casa ao lado, para outros apartamentos do prédio, para as lojas da rua, para gente da terra com apelido igual, a voz calibrada para obter resultados, a pergunta treinada para o melhor efeito, o coração acelerado no medo do falhanço.

O jornalismo de lista telefónica - expressão tantas vezes usada depreciativamente - era na verdade uma forma específica de investigação, para a qual íamos apurando as ferramentas. Como a de conseguir, só com o fraseado e o tom de voz, que do outro lado não nos desligassem a chamada, acedessem a conversar, a dizer se o vizinho está, se o conhece, se sabe ou viu alguma coisa. Fomentar a coscuvilhice, o voyeurismo, até a delação - é isso tantas vezes o jornalismo: se ninguém falar não há história.

Nunca nada me surpreende tanto - e mais de 30 anos de jornalismo não mitigaram o espanto - como o facto de pessoas aceitarem confiar em totais desconhecidos, contar aquilo que muitas vezes nunca disseram a ninguém, encantarem-se com a disponibilidade, mais ou menos verdadeira, mais ou menos ensaiada, que lhes ofertamos. Maior o prodígio ainda que isso possa suceder por telefone, quando a única coisa que temos para essa sedução é a voz.

Muito disso ficou para trás na era dos telemóveis e da crescente noção da importância da privacidade e da necessidade de proteger os dados pessoais. E faz sentido, claro. Exceto numa coisa: com o fim das listas telefónicas desapareceu a facilidade de encontrar os contactos de instituições e organismos públicos. Aquilo que parecia a coisa mais fácil do mundo - ligar para um número de telefone "geral" e pedir para passar à direção, administração ou ao gabinete de imprensa - transformou-se num martírio. Nos respetivos sítios da internet há uma secção de "contactos", certo; mas quase invariavelmente remete para um mail geral, um formulário ou uma "linha azul" com uma série de opções para atendimento específico e nenhuma que permita falar com um operador e pedir para passar a um responsável ou um assessor.

Numa altura em que a transparência e a acessibilidade são cada vez mais centrais no discurso público, aquilo a que se assiste é ao absoluto contrário: uma crescente opacidade e distância, inexpugnabilidade até. Faz algum sentido que um jornalista possa levar horas a conseguir encontrar um número de telefone através do qual localizar um assessor de imprensa - alguém que tem um emprego que consiste, supostamente, em estar disponível para jornalistas, mas que nos dias que correm a única coisa para que parece servir é, quando chegamos à fala, dizer "mande as perguntas por mail"?

Como quem diz: mostre lá o que sabe que a gente responde em função disso. Perante um assunto que não conhece numa área que nunca trabalhou, o jornalista não pode ligar a um assessor de imprensa e dizer "queria perceber como isto funciona, será que me pode explicar?" Impossível. Não só porque há grande probabilidade de o assessor saber ainda menos que o jornalista como porque a ideia de nos pôr em contacto com quem saiba se tornou impensável: o propósito parece, pelo contrário, ser o de que ou desistamos ou percebamos o menos possível. Isto quando sequer nos respondem; há entidades públicas que nem dão nota de receção dos nossos emails - é como se os mandássemos diretamente para o espaço sideral.

A comunicação dessas entidades está aliás cada vez mais parecida com marketing, dirigida a "consumidores"; cada vez mais é até entregue a "empresas de comunicação". Daí que tenham decidido poupar em telefonistas, apostando num circuito fechado de conexões habituais. Como me disse, em tom perplexo, a assessora de imprensa de um ministério, "as TV, rádios e jornais têm os números todos dos assessores das empresas públicas e institutos" - querendo dizer que são fornecidas listas de telemóveis a um determinado circuito, o dos jornalistas que recebem os comunicados e press releases. Quem se aventure numa área que não aborde normalmente, ou seja freelancer ou estrangeiro, chapéu.

Nem consigo imaginar o tormento que será para um jornalista estrangeiro, que não venha "convidado", conseguir informações em Portugal. Lembro-me da exasperação do jornalista espanhol Aitor Hernández, que esteve em Lisboa como correspondente, com a religião "mande as perguntas por mail". É que, por incrível que pareça, não é assim no mundo inteiro. Por mais que os jornalistas sejam chatos - e é nossa função sermos chatos - há democracias nas quais existe uma cultura de sindicância: acham, os malucos, que faz parte da definição do regime.

Daí que faça uma proposta: doravante, quando, a cada novo governo, mandarem aos media as listas de assessores dos ministérios, incluam os de todas as entidades públicas tuteladas por esses ministérios, entre institutos e empresas. Podem chamar-lhe "lista telefónica da democracia". Não espero que vão tão longe quanto exarar instruções para que haja verdadeiras respostas, mas sempre podem fingir que querem receber as nossas perguntas. Quem sabe subimos uns lugares no tal ranking.

Jornalista

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