A informação e a sua batalha contra o tempo

A proliferação de circuitos audiovisuais de informação gerou um culto beato da própria informação. A mais básica interrogação pedagógica - que informação? - é muitas vezes dispensada, e tratada como dispensável, cedendo espaço à pueril exaltação do simples facto de "existir" informação.

Somos mesmo levados a aplicar uma curiosa expressão para celebrar essa vertigem. Assim, em particular face à paisagem política, dizemos que determinada informação "vale o que vale". Regra geral, não vale nada, a não ser o próprio efeito de acumulação que consagra. Não é um fenómeno dos nossos dias. E escusado será dizer que não será possível compreendê-lo a partir de fronteiras nacionais - é mesmo uma "coisa" que justifica uma palavra também frequente na retórica mediática: transversal. Como se as repetições e redundâncias que sustentam tal retórica nos projetassem no ecumenismo da globalização cuja existência, em qualquer caso, da euforia ao ceticismo, todos reconhecemos.

Em 1994, o historiador e filósofo norte-americano Theodore Roszak (1933-2011) tratou tais questões num livro cujo título não poderia ser mais eloquente: The Cult of Information (University of California Press). A sua avaliação crítica do nosso "culto da informação", envolvendo o endeusamento do trabalho dos computadores, está longe de ter perdido actualidade: "Se pensar é apenas uma questão de processamento de informação, então, na verdade, não há nenhuma diferença significativa entre o modo de pensar dos seres humanos e o das máquinas, a não ser o reconhecimento de que as máquinas são melhores nessa tarefa. E se processar informação é a primeira necessidade do nosso tempo, então é óbvio que importa reconhecer a vantagem selectiva das máquinas. Mas que espécie de "selecção" estamos aqui a discutir? Não natural, mas, por certo, selecção cultural. O "ambiente informativo" é, afinal, uma coisa gerada por nós. Deveríamos, por isso, ter o poder de o mudar de modo a servir os nossos valores. Será uma visão sombria da vida considerar que, timidamente, devemos tornar-nos vítimas da cultura que criámos."

Na Internet, no site do jornal The New York Times (e também no respetivo canal do YouTube), podemos encontrar um esclarecedor exemplo dessa vontade de não nos instalarmos, passivamente, no caldeirão da informação quotidiana que recebemos, não poucas vezes sem sequer termos a consciência plena de que a estamos a receber. Tratou-se, neste caso, de fazer um inventário do dia 6 de janeiro, em Washington, quando uma multidão invadiu o Capitólio.

Estamos perante um vídeo de 40 minutos intitulado "Day of rage" ("Dia de raiva") em que se começa por recordar a campanha de Donald Trump, não apenas apontando o Capitólio como um alvo simbólico, mas também, antes disso, conseguindo convencer muitos cidadãos americanos que as eleições presidenciais estavam "viciadas". Seja como for, o essencial deste extraordinário exemplo de "investigações visuais" (designação de uma secção audiovisual do jornal) decorre do didactismo do seu labor: através e, sobretudo, para lá das imagens que criaram um "emblema" informativo da invasão, trata-se de revisitar os factos a partir de uma lógica narrativa que resiste à aceleração banal do clip noticioso.

Nesta perspectiva, o tema fulcral do vídeo - tema político, por excelência - é o tempo. Entenda-se: a duração dos acontecimentos. Mais do que isso: a simultaneidade de alguns factos, a começar pelo discurso de Trump no parque The Ellipse, da Casa Branca, a cerca de 3 quilómetros do Capitólio ("Vamos em direcção ao Capitólio") e o primeiro ataque dos manifestantes contra as barreiras das forças de segurança.

Subitamente, a confusão figurativa dos eventos vai-se dissipando, revelando uma estratégia montada ao longo de vários meses. As palavras de Trump e seus apaniguados deixam de existir como pontuações mais ou menos delirantes, porventura caricatas, para emergirem como elementos materiais de um projecto de desmantelamento de algumas estruturas básicas da democracia americana (a começar pelo Capitólio). A elaboração do vÍdeo de The New York Times durou seis meses, lembrando-nos assim que, para lá da equívoca velocidade do dia a dia, o jornalismo pode ser também uma angustiante batalha contra o tempo.

Jornalista

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