A impotência europeia no Afeganistão

Oque se está a passar no Afeganistão é, em primeiro lugar, um problema dos afegãos e um problema proporcionado pelos americanos, que pode determinar o seu valor enquanto potência global. Mas é, também, a prova de que a Europa tem de passar a preocupar-se mais, a responsabilizar-se mais e a assumir maiores custos com a sua segurança. Coisa que tem estado pouco disponível para fazer e que não parece estar para mudar.

Nos Estados Unidos da América, até há pouco tempo, apenas entre as chefias militares e alguns políticos (em particular entre os que passaram pela guerra) é que havia oposição à saída americana do Afeganistão, decidida por Trump e prometida e executada com convicção por Biden. Agora, as imagens e notícias começam a alterar o sentimento, mas o mais provável é que não alterem a política significativamente. Fora dos Estados Unidos, em particular na Europa, pelo contrário, a saída está a ser recebida com tantas ou ainda maiores críticas do que a entrada. Inclusivamente pelos mesmos, que parecem ignorar que os talibãs estão de regresso, não são uma criação americana.

A intervenção militar no Afeganistão não aconteceu por razões humanitárias, por os americanos estarem preocupados com o terror que os talibãs exerciam sobre a população afegã, e que vai regressar. Aconteceu por os americanos considerarem que seria a forma de derrotar a Al-Qaeda de Bin Laden, responsável pelos ataques do 11 de Setembro. A saída acontece porque os americanos já não suportam as consequências desse esforço, com milhares de mortos americanos, e já não lhe reconhecem importância estratégica. E corre como corre porque não se preocuparam em reconstruir o país e as suas estruturas políticas. Podemos achar que isso é um erro dos americanos, que parecem estar convencidos de que uma potência global pode "virar-se" apenas para o Pacífico, como se fosse um poder regional, exatamente quando a China faz o oposto e expande a sua presença global. Mas esse é, em primeiro lugar, um problema americano. O problema dos europeus é consequência desse, mas é outro.

No curto prazo, os afegãos que conseguirem hão de fugir de Cabul e de outros lugares e pôr-se a caminho da Europa, criando um fluxo migratório. A chegada dos que fogem do absolutismo islâmico, do terror talibã, da acusação de colaboracionismo com o Ocidente durante os anos da intervenção, não são o que vai ameaçar a Europa. Para a segurança europeia, o primeiro problema é saber que poder se vai instalar no Afeganistão (já sabemos) e com que aliados internacionais; as consequências que essa transformação trará para a região e como é que a inconsequência europeia será lida local e regionalmente; e quanto tempo demorará até que o Afeganistão volte a ser um santuário para terroristas que ameaçam a Europa (o 11 de Setembro não foi apenas um problema dos americanos nem a Al-Qaeda atacou apenas ali). O segundo problema europeu, maior, é o que estamos ou não estamos dispostos quanto a tudo isso.

Reconhecer que os americanos já não estão disponíveis para assegurar a proteção europeia e que têm prioridades estratégicas divergentes das nossas não implica defender a criação de exército europeu ou a tomada de decisões de política externa e (no futuro) de segurança por maioria. Mas implica reconhecer que, no máximo, manifestar grande preocupação e ameaçar com sanções não é a política externa de uma potência. Tem de haver a possibilidade, mesmo que remota, de estar disponível para intervir.

Se os americanos não quiserem, os afegãos precisarem e a Europa também, os europeus estão disponíveis para o quê?

É muito fácil a Europa declarar-se uma potência normativa. É muito mais difícil e custoso ser uma potência de facto. A fadiga americana é bem ilustrativa. E potencialmente trágica.

Consultor em assuntos europeus

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