A Europa precisa de fazer, em vez de comprar feito

A queda de 9% na produção industrial nacional no passado mês de agosto, influenciada pela falta de semicondutores para a indústria automóvel e pelos problemas enfrentados no setor energético, demonstrou mais uma vez como estamos - Portugal e a Europa no seu todo - dependentes do mercado global. A globalização trouxe benefícios inegáveis à economia e aos cidadãos. Democratizou o acesso a bens e serviços que no passado estavam fora do alcance de grandes franjas da população.

Mas levou-nos também a desinvestir de setores de importância crítica para a nossa autonomia.
Ao longo dos anos habituámo-nos a encomendar a fornecedores externos os componentes de que precisávamos, ou até o produto acabado, porque nos parecia economicamente razoável comprar a quem nos vendia a preços competitivos e com garantias de entrega atempada dos stocks, em vez de fabricar. Nesse processo, fomos perdendo capacidade produtiva, enquanto os nossos fornecedores estavam a crescer mais do que nós, a tornar-se mais inovadores e a passar de parceiros comerciais a nossos concorrentes diretos.

A indústria europeia perdeu capacidade produtiva em diversos setores e países como Portugal - onde essa capacidade foi sempre muito limitada - sofrem agora as consequências dessa dupla dependência: a dependência da Europa e a dependência desta face a outros mercados.

O mesmo pode ser dito em relação ao aumento dos preços da energia. A principal causa desta situação é a subida do custo do gás natural. E o principal motivo para este estar a aumentar de forma acentuada é a nossa dependência dos seus produtores e a pressão compradora dos tais mercados que nos habituámos a ver como fornecedores, mas que são cada vez mais nossos concorrentes.

Tudo isto nos aponta para a mesma urgência: a Europa tem de reconquistar a sua soberania e competitividade. A sua indústria tem de não apenas recuperar capacidade produtiva de base, naquilo que é essencial, mas ser capaz de reclamar a liderança pela qualidade e inovação dos seus produtos. Tem de ser capaz de produzir aquilo que os outros querem ter.

Produtos mais duráveis, ecologicamente mais sustentáveis, contribuindo para o ambiente e também para reduzir a nossa necessidade de matérias-primas. Produtos que possam ser mais facilmente reparados, cujos componentes sejam recicláveis, poupando dinheiro às nossas famílias, criando novos empregos ou recuperando antigas atividades que se foram perdendo com o tempo.

É importante garantir que seja assegurada a igualdade concorrencial com outros mercados, sobretudo tendo em conta as metas ambiciosas a que nos propusemos para a descarbonização da nossa economia. Mas o caminho para esta reafirmação europeia passa, sobretudo, pela forte aposta na ciência e na inovação. Na nossa capacidade de criarmos tecnologias inovadoras, de as transferirmos para a indústria e de as fazermos chegar aos nossos cidadãos.

Tecnologias que nos permitirão também obter uma energia mais sustentável, tanto no plano ambiental como no económico. A propósito: há quem culpe o Green Deal pelo aumento dos preços da energia, esquecendo-se que um dos objetivos deste plano é precisamente libertar a União Europeia da sua dependência externa de combustíveis fósseis.

Por isso o atual programa-quadro de ciência e inovação, o Horizonte Europa, tem uma importância superlativa para o nosso futuro. E não posso deixar de referir as parcerias com a indústria, das quais sou relatora pelo Parlamento Europeu, abrangendo áreas como hidrogénio limpo, computação de alto desempenho, saúde, tecnologias digitais, economia circular e transportes. Passam por aqui as raízes da nova revolução industrial europeia. E Portugal, desta vez, tem de estar a bordo.


Eurodeputada.

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