A Europa em que ninguém acredita

O episódio da humilhação de Josep Borrell em Moscovo diz muito mais sobre a Europa do que sobre a Rússia.

Que o regime de Putin é agressivo, se sente impune e que desestabilizar à sua volta é uma estratégia de exibição de um poder diminuído mas subsistente, já se sabe. Que é um perigo, sobretudo para quem está perto das suas fronteiras, também.

O problema do que aconteceu em Moscovo não é a Rússia, é a Europa. E nem é Borrell, embora se o chefe da diplomacia europeia e a sua equipa foram surpreendidos é porque alguém é ingénuo. Ou incompetente.

A União Europeia não pode ser geopolítica se não tem uma noção do lugar que quer ocupar no mundo. E para isso não precisa de decidir política externa por maioria, precisa de ter uma noção de si. Isso não se decide por maioria, sente-se e partilha-se.

A tese de que a decisão da política externa por maioria resolveria os problemas das relações internacionais da União Europeia choca com duas evidências. Por um lado, propor que decisões fundamentais para a sobrevivência de um Estado, como as relações com os seus vizinhos, possam ser tomadas contra a sua vontade é ilógico e só um Estado esgotado o aceitaria. Por outro, a decisão maioritária não garante que os europeus têm uma ideia de si e do seu lugar no mundo, apenas prova que uma maioria tem um interesse e que usa o peso da União Europeia para o prosseguir.

A alteração das prioridades globais dos Estados Unidos e da sua disponibilidade para intervir militarmente nas fronteiras próximas da Europa obrigam os europeus a ser mais realistas quanto ao que podem ter de fazer para defender os seus interesses. Mas para isso precisam de acreditar que têm interesses comuns, que uma Europa com peso global é do interesse de todos.

É óbvio que a Rússia ou a Turquia não representam uma ameaça imediata aos interesses portugueses, da mesma maneira que as relações com o Brasil ou África dizem pouco aos polacos; que o Mediterrâneo e as pressões migratórias a sul preocupam de maneiras diferentes italianos ou irlandeses. E que há divergências entre a competição que os franceses acham que podem ter com os Estados Unidos em alguns espaços e a importância da relação transatlântica para os países da Europa Central e de Leste, ou para nós, de novo.

Nada disto se resolve impondo vontades maioritárias. Nem decidindo que a geopolítica europeia é meramente comercial e que, portanto, se deve evitar, a todo o custo, tensões que prejudiquem as relações comerciais (sobretudo) de alguns.

Para ter uma autonomia estratégica que não seja fechada, meramente maioritária ou oposta aos nossos aliados, os europeus terão de acreditar que os interesses vitais de Chipre, de Portugal ou da Alemanha são compatíveis e, mais do que isso, são mais bem defendidos se a Europa tiver um lugar próprio e relevante no mundo. E que esse lugar não coloca em risco a soberania e a autonomia de cada um dos Estados membros.

Essa ideia de conceito estratégico europeu é tanto política como cultural, demográfica, histórica e de segurança. Se os europeus acreditarem, sentirem, que uma ameaça numa das fronteiras é um risco para a Europa e, portanto, para todos, esse conceito emerge e partilha-se. Se tal não acontecer, Borrell ou outro qualquer continuarão a fazer tristes figuras em Moscovo ou noutro lugar em que as divergências entre os interesses dos governos europeus sejam maiores do que a convicção de que a Europa tem interesses comuns. E nada disto tem de implicar um distanciamento dos nossos aliados. Muito pelo contrário. Essa ideia de comunidade reforça-nos, não nos diminui.

Tudo isto, claro, é muito mais fácil de descrever do que de construir. Mas não há alternativas muito melhores

Consultor em assuntos europeus

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