A cozinha italiana é afecto e responsabilidade

Na semana de 22 a 28 de novembro celebrou-se em Portugal a Semana da Cozinha Italiana, que chegou este ano à sua sexta edição. Trata-se de uma iniciativa promovida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional da República Italiana, que decorre em todos os Países da nossa rede diplomática promovendo as excelências da enogastronomia italiana no contexto mais amplo da Dieta Mediterrânica (cujos valores a Itália partilha com Portugal) e por contraste ao chamado "Italian sounding", fenómeno que consiste na imitação de produtos e receitas da nossa culinária usando fórmulas que soam "à italiana" mas desrespeitam por completo os nossos padrões de qualidade.

De facto, quando se fala em cozinha italiana não se convoca apenas a categoria do bom, mas também a do belo: no imaginário colectivo universal os sabores italianos estão associados às paisagens onde se cria a matéria-prima dos nossos pratos e vinhos, e à peculiar relação entre essas paisagens e quem as habita. E há ainda outra relação muito forte: a forma de afecto que inevitavelmente se estabelece entre quem elabora os pratos e quem os consome, num ritual de partilha que é característico da nossa forma de comunicar.

Di-lo bem o chef Alfonso Caputo, estrela Michelin do restaurante Taverna del Capitano de Nerano, nosso convidado nesta edição da Semana: o que caracteriza a cozinha italiana, em relação a outras gastronomias, é o afecto. Cozinhar é cuidar dos outros, estabelecer com eles um vínculo de familiaridade e cumplicidade, usando uma linguagem de partilha que é típica da cultura italiana. E é interessante observar como na nossa língua a palavra affetto significa tanto o sentimento que experimentamos como também, por extensão, os entes a que esse afecto se destina. Chamamos aos entes queridos os nossos "afectos". Affetto é para nós o sentimento que nos move e também o objecto desse sentimento. Daí podermos dizer com toda a certeza que a cozinha italiana é afecto.

Nesta personificação do afecto, nesta sua manifestação tangível, encontramos não só uma boa definição da cozinha italiana, como também um fio condutor das diversas iniciativas que a Embaixada de Itália realizou este ano por ocasião da Semana da Cozinha Italiana.

Quisemos em primeiro lugar prosseguir no nosso projecto de intensificar as interações com o bairro de Arroios, onde a Embaixada se situa. Assim, estabelecemos uma parceria com o Torel Palace Lisbon, para partilharmos com os nossos convidados as vistas do hotel, no topo da colina de Santana, num showcooking com o chef Caputo, que preparou para a Embaixada um jantar de gala inspirado na tradição da Costa Amalfitana. Também visitámos com ele o novo Centro de Alojamento de Santa Bárbara para a população sem-abrigo, e com o apoio de diversas empresas italianas criámos uma corrente de solidariedade que permitiu inaugurar o refeitório do centro oferecendo um jantar italiano aos seus hóspedes.

Consolidámos assim, através da cozinha, os laços com Portugal, das altas autoridades às populações mais vulneráveis, e tivemos a oportunidade de dialogar com estudiosos de gastronomia, cozinheiros, influencers, jornalistas e, claro, com o público gourmet dos buongustai, graças aos menus especiais dedicados à Semana em toda a rede dos restaurantes italianos de Portugal.

Resiliência e inclusividade foram os motes da manifestação, que constituiu a ocasião para nos juntarmos à mesa cientes de uma série de questões e compromissos que debatemos juntos, Itália e Portugal, nos contextos bilaterais e multilaterais. O tema desta VI Semana da Cozinha era a "Consciencialização e valorização da sustentabilidade alimentar", título esse que convoca inevitavelmente para uma reflexão acerca das políticas agrícolas comuns, da sustentabilidade dos nossos meios de produção e distribuição, e sobretudo da necessidade de garantir a toda a população mundial o acesso à alimentação. Nessa perspectiva realizámos um webinar sobre agricultura sustentável com a participação do Secretário Executivo da CPLP, Zacarias da Costa, e estabelecemos uma parceria com a associação Slow Food italiana e com a sua representação em Portugal.

A presidência portuguesa do Conselho da UE coincidiu este ano com a presidência italiana do G20, e em ambos estes contextos alargados assumimos juntos diversos compromissos, de entre os quais destaco os dois principais que nos inspiraram para a organização desta Semana: a Declaração assinada em Matera em junho, pela qual os líderes mundiais comprometeram-se a trabalhar em conjunto para alcançar o objectivo da "Fome Zero" até 2030, e o reforço da componente social da União Europeia, uma das principais prioridades da Presidência Portuguesa do Conselho da UE , que se concluiu com o lançamento da Plataforma Europeia de Combate à Situação de Sem-Abrigo. Pois, entre estes dois pólos trabalhámos nós ao longo da semana, para contribuir sem retórica mas com gestos concretos à chamada Década de Ação, que teve início em 2021 e deverá continuar nos próximos anos com mais impulso.

Embaixador de Itália em Portugal

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