A construção do interesse europeu

A Europa precisa de reforçar as suas capacidades de defesa e assumir maiores responsabilidades pela sua segurança, declararam os chefes de Estado e de governo da União Europeia, no final do Conselho Europeu da semana passada. Ao mesmo tempo, três antigos primeiros-ministros europeus sugeriram, num editorial publicado num daqueles jornais que só se leem em Bruxelas, que a Alemanha cancelasse o projeto Nord Stream 2 (o gasoduto que a ligará à Rússia) e que os restantes europeus indemnizassem os alemães pelos custos dessa decisão, fundamental para o que defendem dever ser a política europeia face a uma das suas maiores ameaças: a Rússia.

Enquanto o Conselho Europeu teorizava sobre valores e interesses comuns, os ex-governantes foram realistas, reconheceram que não há sempre um interesse europeu comum e que é mais fácil negociá-lo do que impô-lo ou, mais romanticamente, sonhá-lo.

As declarações sobre segurança e defesa importam, mais do que pelos resultados imediatos, porque refletem a visão que define a política europeia atual neste domínio: reconhecer que as responsabilidades dos europeus pela sua segurança e defesa serão crescentes, que isso implica ter maior capacidade militar e que para isso é necessário ter indústrias de defesa. É, sobretudo, o que o presidente francês acha.

Desde o início do seu mandato que Macron tem dito isto. E não foi por acaso que o comissário francês, Thierry Breton, dispensando a vaidade de uma vice-presidência, acumulou três pastas na Comissão Europeia: Mercado Interno, essencial para estruturar a política industrial; Defesa e Espaço, com uma direção-geral acabada de criar; e Digital, para desenvolver o conceito de soberania digital e, sobretudo, de capacidade tecnológica própria.

Emanuel Macron, que lidera a única potência nuclear europeia, acredita que autonomia que defende para a Europa passa por estes três pilares: defesa, indústria e digital. Uma versão europeia de "complexo militar industrial", habitualmente associada ao poder dos Estados Unidos. Os restantes líderes europeus não parecem discordar.

O problema desta abordagem é que serve de pouco ter indústrias de defesa e capacidade militar se não tivermos uma ideia comum sobre quem são os nossos amigos e quem são os outros.

John Bruton, ex-primeiro-ministro irlandês e ex-embaixador da UE nos Estados Unidos, Mikulás Dzurinda, ex-primeiro-ministro da Eslováquia e atual presidente do think tank do Partido Popular Europeu, e Andrius Kubilius, ex-primeiro-ministro da Lituânia e atual deputado ao Parlamento Europeu, têm em comum três coisas: já estiveram sentados naquele mesmo Conselho, em ocasiões diferentes, são da mesma família política de Merkel e, por razões diferentes, sabem o que é contar com os Estados Unidos, em caso de dificuldades. E temer a Rússia, dois deles.

A ideia de indemnizar a Alemanha pelos prejuízos resultantes do cancelamento do projeto assume que a Alemanha tem um olhar essencialmente económico para a relação com a Rússia, que pode ser persuadida de que essa relação é estratégica para todos os europeus e que pode haver uma transação entre um termo e o outro, em nome do interesse da maioria, sem ser por via da imposição.

O que os antigos governantes sugerem é que a ideia de interesse comum europeu pode ser construída e negociada. Bruton, Dzurinda e Kubilius provavelmente não terão sucesso. Mas os chefes de Estado e de governo, se ignorarem estes factos, também não.

Consultor em assuntos europeus

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