Opinião

Jaime-Axel Ruiz Baudrihaye

A velocidade das notícias falsas

A agência Reuter tinha por norma só difundir uma noticia após obter a confirmação através de três fontes distintas e independentes. A falsa notícia de uma agressão homofóbica em Madrid, reproduzida com todo o destaque por grande parte da imprensa madrilena é um grave aviso da prudência que se tem de observar em casos tão mediáticos como os alegados delitos contra homossexuais ou mulheres, atentados ambientais, terroristas ou financeiros. A fronteira entre o boato e a realidade é muito ténue. Usar dados erróneos é algo que sucede todos os dias e é perigoso, tanto para os analistas financeiros como para os científicos que investigam a pandemia de Covid 19. Errare humanum est.

Jaime-axel Baudrihaye
Victor Ângelo

A alma de Ursula e os canhões de Vladimir

A semana europeia recebeu duas grandes mensagens. Uma, a partir de Estrasburgo, é um apelo ao reforço da União Europeia. No essencial, é uma visão construtiva, apesar das dificuldades e dos desvios que estão a ocorrer nalguns estados-membros. A outra, proveniente de Moscovo, procura projetar força, na conceção clássica de poder militar. Esta última é uma mensagem perturbadora, de alguém que vê o futuro pelo prisma da confrontação. Não tem em conta as aspirações dos cidadãos, que querem paz e uma maior proximidade com o resto da Europa. E também não compreende que a cooperação e a interdependência entre blocos constituem as bases do progresso económico e social mútuo.

Victor Ângelo
Raúl M. Braga Pires

Marrocos: novo Governo (negociações)

Antes demais assinalar o facto de as três maiores e mais conhecidas cidades marroquinas, Casablanca, Rabat e Marraquexe terem eleito mulheres enquanto presidentes de câmara. Tratam-se, respectivamente de, Nabila Rmili (RNI), Asmaa Rhlalou (RNI) e Fatima-Zahra Mansouri (PAM). Trata-se da primeira vez que isto acontece, fruto de um acordo tripartido entre RNI, PAM e ISTIQLAL, não havendo aqui nenhum romance da menina pobre que a pulso foi subindo na hierarquia social do reino e finalmente atingiu o topo por mera meritocracia. Fatima-Zahra Mansouri é aliás neta do Pachá de Marraquexe, o famoso El-Glaoui, o "colabô" que esteve na origem do envio para o exílio, pelos franceses, do Sultão Youssuf Mohammed para Madagáscar em 1953.

Raul M. Braga Pires
Rosália Amorim

Desconfinar. À vontade não é à vontadinha! 

Olhos colados às televisões e aos sites e ouvidos bem abertos. Os portugueses esperavam a comunicação da "libertação total" na sequência da reunião do Infarmed, ontem à tarde, mas ainda não foi desta. Mais vale prevenir do que cantar vitória antes do tempo certo. O encontro, em que Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e governo ouviram os especialistas da área saúde, deixou antever um novo alívio das medidas restritivas da pandemia, mas de forma leve. Antes do encontro, Marcelo Rebelo de Sousa disse que já passaram os tempos em que entrava naquela reunião com o "coração pequenino", mas pediu "serenidade". Não vem aí a liberdade completa, mas a terceira fase de desconfinamento.

Rosália Amorim
Rosália Amorim

A poção de Ursula para puxar pela Europa 

Ursula von der Leyen reforçou o seu papel como uma das grandes líderes da Europa, além de Angela Merkel, claro. No seu discurso sobre o estado da Europa, proferido ontem, traçou metas ambiciosas a atingir no combate à pandemia, no avanço da vacinação e enalteceu ainda a importância da criação de uma entidade europeia que irá trabalhar na prevenção e resposta a crises pandémicas futuras. A presidente da Comissão Europeia acredita que com a existência do certificado digital e o entendimento entre os Estados membros, tudo ficará mais fácil em termos de política de coordenação global da área da saúde para os anos vindouros.

Rosália Amorim
Jorge Moreira da Silva

Além da democracia formal

O tema da qualidade da democracia tem sido recorrente nestes meus artigos, mas, desta vez, abordo-o numa perspetiva global e não nacional. Em especial porque, no preciso momento em que nos confrontamos com a resposta a uma crise cuja gravidade não tem precedentes nas últimas sete décadas, e que necessariamente requererá uma mobilização de todos os cidadãos, deparamo-nos com uma inquietante erosão da confiança dos cidadãos na política, nas instituições e na própria democracia.

Jorge Moreira da Silva
Rosália Amorim

Sem afetos, esta é a campanha mais desafiante para os autarcas

A campanha eleitoral para as autárquicas já é oficial. Ditam as regras que o primeiro dia foi ontem. Mas há muito que vemos nas ruas os candidatos a tentar convencer a população com os seus argumentos e propostas. Na capital, as sondagens dão vitória a Fernando Medina, ainda que tenha vindo a esbater-se a distância entre Medina, da coligação Mais Lisboa, que junta o PS e o Livre, e Carlos Moedas, cabeça de lista da coligação Novos Tempos, que junta cinco forças políticas: PSD, CDS, PPM, MPT e Aliança.

Rosália Amorim
José Ribeiro e Castro

Joacine, a censora

Construí a tese de Joacine Katar Moreira ser uma vibrante evidência do lusotropicalismo, da específica maneira portuguesa de estar no mundo, inclusiva e integradora. Uma leitura sociológica e histórica, que informa correntes de pensamento português com o traço comum da multirracialidade e capacidade de abrangência religiosa. Uma teoria que, mais do que apenas leitura do passado, é sobretudo uma leitura para o futuro - e, assim, uma promessa, uma promessa radiosa.

Ribeiro e Castro
Cristina Siza Vieira

Jorge Sampaio. Uma pequena estória, uma grande visão

No início da década de 90 do século passado, o Grupo Pestana adquiriu o Palácio Vale- Flor, em Lisboa, com a intenção de o transformar em hotel. Além da adaptação do Palácio em si, a intenção era levar a efeito no jardim a construção de quartos e suites, de acordo com um projecto do Arquitecto Manuel Tainha. Apesar do parecer favorável do então Instituto Português do Património Cultural, a Comissão de Coordenação da Região de Lisboa e Vale do Tejo emitiu parecer desfavorável ao projecto, que veio a ser reformulado. Um ponto crítico dizia respeito aos jardins do palácio. Havia que manter não só a traça romântica do jardim, como as suas árvores e arbustos. Que alegadamente o projecto desrespeitava. Ao tempo, como Subdirectora geral do Turismo, lembro-me de, juntamente com o Director-Geral, visitar esse jardim, acompanhados por técnicos do Laboratório de Patologia Vegetal - denominação expressiva, esta - do Instituto Superior de Agronomia, creio que por indicação sábia do Arquitecto Ribeiro Telles, com quem se vinha falando sobre a difícil situação. Fui calçada de botas cardadas, tal como os demais, penso. O estado sanitário das poucas arvores e arbustos que resistiam de pé metia dó. E o traçado do jardim já nada tinha de romântico, de há tanto tempo abandonado.

Cristina Siza Vieira
Pedro Cruz

Com o devido respeito

Numa campanha eleitoral, que tem várias formas de expressão, entre entrevistas, debates e comícios, arruadas e discursos, é tido como "normal" que se cometam "excessos" de linguagem contra os adversários políticos. No dia da eleição, volta a serenidade e a urbanidade que, por norma, pautam as relações entre políticos dos vários partidos, com mais ou menos diferenças ideológicas, durante todos os outros dias do ano em que não estão em campanha eleitoral.

Pedro Cruz
Guilherme de Oliveira Martins

Um testamento a cumprir

Quando alguém que admiramos parte, é importante recordar a sua memória e tudo quanto nos deixou, em especial no exemplo e nas obras realizadas. Mas há algo mais que se nos pede. No caso de Jorge Sampaio, pudemos contar, até aos últimos dias da sua vida, com a determinação e a sua atenção especial a todos os sinais de desumanidade e riscos de injustiça. E se ouvimos, nestes dias, muitas palavras justas de elogio sobre o seu percurso e sobre o tanto que fez, a verdade é que temos de ter presente o último apelo que nos deixou, que tem de ser ouvido e cumprido. Combatente de sempre dos direitos humanos, não só como eminente causídico e jurisconsulto, mas sobretudo como generoso e determinado homem de causas, como a liberdade e a justiça, que prosseguiu sem qualquer quebra na determinação ou no entusiasmo, mesmo quando as forças físicas lhe iam faltando, foi um construtor de soluções concretas na defesa dos valores humanitários, designadamente no caso dos refugiados.

Guilherme d'Oliveira Martins
João Melo

Brasil: amanhã há de ser outro dia?

Claro, responderia La Palisse à pergunta que escolhi para título do artigo de hoje, inspirado na famosa canção. A questão é saber se será melhor ou pior ainda do que já está a situação no maior país de língua portuguesa (e também o segundo país "negro" do mundo, depois da Nigéria), após três anos de governação de um confesso defensor da ditadura militar de 64 no referido país, mas sem a visão nacionalista e desenvolvimentista do regime em questão.

João Melo
Margarita Correia

Linguística para psicólogos. Precisa-se.

A palavra "terapia", proveniente do grego "therapeia", é usada em diferentes áreas de conhecimento e na língua corrente, significando, de acordo com a Infopédia, "meio ou método usado para tratar determinada doença ou estado patológico; tratamento; terapêutica". Há atualmente terapias para todos os gostos: e.g. familiar, sexual, da fala, do casal, de grupo, psicoterapia, isto para ficarmos só no âmbito da psicologia. A necessidade de terapia pressupõe a existência, no indivíduo ou no grupo, de um distúrbio, doença ou patologia.

Margarita Correia
Rui Diogo

Racismo, machismo, eurocentrismo e a idolatria de Darwin

Nos últimos meses, um evento crucial está a ocorrer nas áreas da biologia evolutiva e da antropologia biológica. Por exemplo, num capítulo publicado num livro que inclui vários cientistas internacionalmente reconhecidos - A most interesting problem - e posteriormente num editorial recente de uma importante revista científica, Science, o antropólogo Agustin Fuentes afirmou que as obras de Darwin, em particular o seu livro The Descent of Man, incluíram várias afirmações etnocêntricas, racistas e machistas. Este é um facto inequívoco que todos podem confirmar: o livro está disponível gratuitamente, na internet. O que é particularmente revelador e crucial, ainda mais do que aquelas duas publicações de Fuentes, é a reacção severa de numerosos cientistas a essas publicações. Em particular, por vários cientistas ocidentais, incluindo alguns muito proeminentes, que muitas vezes tentam retratar Fuentes como um radical e/ou um pária dentro da comunidade científica. Esta é uma estratégia típica usada contra cientistas que questionam a idolatria quase religiosa de Darwin. Na verdade, essa estratégia confirma, em si, o que Browne, que conhece as obras de Darwin e seu contexto mais profundamente do que quase ninguém, reconheceu no seu livro Darwin Voyaging: "[Na sociedade vitoriana] as ideias científicas e a fama científica não vieram automaticamente para as pessoas que trabalharam duro e colectaram insetos... um amor pela história natural não poderia, por si só, levar uma governanta ou um operário ao topo da árvore intelectual do século XIX.. nem pode, por si só, explicar Darwin".

Rui Diogo
João Ribeiro-Bidaoui

"Extra! Extra! Político nomeia Magistrado!" 

Consigo imaginar uma criança ardina a gritar o título deste artigo pelas ruas pestilentas de uma Paris pós-revolucionária. Poderia bem ser a manchete do primeiro exemplar do L"Ami du peuple, jornal do jacobino Marat, lançado em 12 de Setembro de 1789. Para ele, tal nomeação seria certamente uma afronta ao Espírito das Leis de Montesquieu, segundo o qual a promoção da liberdade depende da atuação independente e bem separada entre os poderes de um Governo, de um Parlamento e de uma Justiça. Um espírito que, desde então, se materializou no essencial das construções constitucionais do Atlântico Norte ao Japão, da Coreia do Sul ao Chile, passando pela Oceânia.

João Ribeiro-Bidaoui
Leonídio Paulo Ferreira

"É preciso não esmorecer"

Dois dias antes de fazer 80 anos, Jorge Sampaio fez uma palestra em Óbidos, no curso de verão ali habitualmente organizado pelo IPRI-Nova, com coordenação de Nuno Severiano Teixeira. Falou das ameaças à democracia liberal e enfatizou que "é preciso não esmorecer", frase que me tocou. O antigo presidente aceitou depois tirar uma foto de grupo, onde estão Severiano Teixeira e Carlos Gaspar (também do IPRI e que foi seu conselheiro em Belém), o autarca Humberto Marques, Ricardo Alexandre, da TSF, e restantes participantes, uma dúzia.

Leonídio Paulo Ferreira