Opinião

Leonídio Paulo Ferreira

Homenagem aos nossos "infantes de Marinha"

Obrigado a transferir a capital do Império português para o Rio de Janeiro para escapar à captura pelas tropas napoleónicas, o príncipe-regente D. João ordenou já com a Corte no Brasil a conquista de Caiena, a capital da Guiana francesa, que caiu em janeiro de 1809. Nessa ação militar, destinada a tirar desforço dos franceses que tinham invadido Portugal e chegado a entrar em Lisboa em finais de 1807, participaram "cerca de 300 infantes de Marinha, embarcados nos brigues Infante D. Pedro e Voador", como contou há três anos num artigo na Revista da Armada o almirante Silva Ribeiro, hoje Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Ora esses "infantes" que integravam a então Brigada Real da Marinha são, embora sob outra designação, os nossos fuzileiros, corpo militar de elite que ontem celebrou 400 anos, tendo sido criado em 1621 com o nome original de Terço da Armada Real da Coroa de Portugal.

Leonídio Paulo Ferreira
Daniel Deusdado

Bazuca de felicidade. Obrigado covid

Não querendo gastar tempo sobre a capacidade de Sócrates em detetar "mandantes" (alô Ivo Rosa :) ), partilho hoje a imensa alegria que me tomou na última sexta feira ao contemplar uma das aparições mais extraordinárias da minha vida. Estava eu desprevenido a ver o vídeo da apresentação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) quando "aquilo" surge. Como agora se diz... então é assim: o primeiro-ministro fala e, ao fundo, está um gráfico com umas linhas a apontarem para cima, rumo ao céu, deixando antever a tão desejada... prosperidade. Sim, ela, finalmente.

Daniel Deusdado
Rogério Casanova

Seis coisas inacreditáveis antes do pequeno-almoço

Há aqui uma questão sensível." Estávamos perto da meia-hora de jogo e José Alberto Carvalho tinha um plano. O plano era fazer mais uma pergunta e, ao contrário do que tinha acontecido com as seis perguntas anteriores, obter uma resposta. "Mas é uma questão sensível... em relação à qual o juiz Ivo Rosa também entende que deve ser avaliada em julgamento... que é uma questão que tem que ver com o cofre que a sua mãe tinha em casa..."

Rogério Casanova
Sebastião Bugalho

Peras, pranchas e petições

No Confissões de Agostinho de Hipona, livro menos conhecido mas não menos belo do que a sua Cidade de Deus, o santo narra a fábula de um furto de peras para descrever o modo como foi, na sua juventude, atraído pelo pecado. Era o roubo do fruto, e não o consumo do mesmo, que motivava e atraía o jovem Agostinho, antes de ser cristão, bispo e mais tarde santo. No livro, cuja definição de maldade fica assim resumida, também o amor (ou a consumação do desejo) merece a literatura deste ocidental, comparando o sentimento da paixão a "morrer sem perder a vida" e "enlouquecer sem perder o juízo". Ora, entre as peras, as paixões e a humanidade de Santo Agostinho, foi nas suas Confissões que achei gancho para olhar esta semana, de evidente protagonista e desconhecido desfecho.

Sebastião Bugalho
João Lopes

Há um artista a viver dentro do seu smartphone

No menu dos smartphones proliferam aplicações que nos convidam a fazer fotografias com os mais variados recursos técnicos. Incluindo as que evocam certas memórias mais ou menos distantes, algumas permitindo até a recuperação nostálgica de películas que, como dizem os tecnocratas, foram "descontinuadas". Exemplo insólito: uma aplicação que oferece a possibilidade de refazer o look de uma determinada película da Fuji, que, pela densidade dos seus verdes e castanhos, ficou associada ao visual da década de 90 - a "atualização" vai ao ponto de inscrever nas imagens agora obtidas uma data de um ano daquela década.

João Lopes
Anselmo Borges

Epitáfio: Professor Hans Küng​​​​​​​

1 Morreu em paz na sua casa de Tubinga no passado dia 6 o teólogo católico mais conhecido nas últimas décadas. Escreveu o próprio epitáfio: PROFESSOR HANS KÜNG. Professor vem do latim: profiteri, que também significa entregar uma mensagem. O problema de muitos professores é que não têm mensagem nenhuma para entregar; Küng tinha e passou a sua vida a passar essa mensagem, mensagem maior para a Humanidade: o Evangelho em confronto com o mundo moderno e o mundo moderno em confronto com a fé. Ainda teve a alegria de ver a suas obras completas publicadas: 24 volumes. Sobre a fé, a Igreja, Deus, as religiões, a arte, a psicanálise, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a ética... Era um trabalhador incansável, com profundíssimo conhecimento de Teologia, Filosofia, História, Ciência... e com o dom, raro, de transmitir em linguagem acessível o que o rigor académico exige.

Anselmo Borges
Adriano Moreira

Repor o direito internacional

Para compreender a situação atual da ONU, cujas dificuldades no domínio do seu estatuto, principalmente cumprir a definição jurídica para a manutenção da paz, tudo indispensável para o desenvolvimento, parece de utilidade ter presente que se trata de um texto dos vencedores da guerra de 1939-1945, tal como aconteceu com o Estatuto da Sociedade das Nações, o equivalente da Guerra de 1914-1918, e também obra de vencedores, ou, para simplificar, de ocidentais e respetivas culturas. Uma novidade habitual, portanto, para o chamado "resto do mundo" plural de formas jurídicas impostas, quer tivessem a designação formal de colónia, que nos factos não ganhava superioridade suficiente para a liberdade política, quer recebendo a designação de protetorado, mandato, fideicomisso. A origem do texto não impediu que a resposta, aos colonizadores ocidentais, seria a de os considerar "os maiores agressores dos tempos modernos".

Adriano Moreira
Rosália Amorim

Um país a várias velocidades

O turismo vai continuar a puxão do travão de mão? O acordo com Espanha para manter a fronteira fechada mantém-se por mais 15 dias, anunciou o primeiro-ministro nesta semana. Dos dois lados da fronteira a pandemia tem tido uma evolução positiva, mas, ainda assim, a cancela fronteiriça vai permanecer encerrada. No que toca às viagens de avião vão continuar a vigorar restrições aos passageiros vindos do Reino Unido e do Brasil. Podem deslocar-se a Portugal apenas para viagens essenciais. No caso dos britânicos precisam de apresentar um teste negativo; já no caso do Brasil os viajantes não só terão de trazer consigo um teste negativo como se sujeitarão a um período de quarentena.

Rosália Amorim
Victor Ângelo

A Espanha quer correr em África em pista própria

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esteve recentemente em Luanda e, no regresso, em Dakar. A deslocação marcou o arranque do plano de ação aprovado pelo seu governo com o título "Foco África 2023". O plano é uma aposta na prosperidade africana. A Espanha quer ser um dos grandes parceiros do desenvolvimento de um conjunto de países designados como prioritários. A lista inclui, no norte, Marrocos, Argélia e Egito, deixando de fora a Líbia e a Tunísia - uma nação a que a Europa deveria dar uma atenção especial. Inclui ainda toda a África Ocidental (CEDEAO) e países de outras regiões - a Etiópia, o triângulo que Quénia, Uganda e Tanzânia formam, a África do Sul e, mais perto dos interesses portugueses, Angola e Moçambique. Esta dispersão de esforços parece-me um ponto fraco.

Victor Ângelo
Alexandra Magnólia Dias

Seis lições para uma intervenção internacional em Cabo Delgado

A tomada iminente da capital por parte dos movimentos militantes islamistas na Somália e no Mali, Mogadíscio e Bamako respetivamente, catalisaram as intervenções da Etiópia a 24 de dezembro de 2006 e no caso do Mali das Forças Armadas de França a 11 de janeiro de 2013. Nos dois casos há seis lições a retirar que nos podem servir de guia em relação a uma intervenção internacional no norte de Moçambique em Cabo Delgado. As Forças de Defesa e de Segurança do Estado moçambicano conduziram a resposta desde os primeiros ataques a 5 de outubro de 2017 com o recurso a companhias militares de segurança privadas (CMSP), a russa Wagner e a sul-africana Dyck Advisory Group, entre outras.

Alexandra Magnólia Dias
Mário Pinto

Fragilidade e multimorbilidade

A fragilidade e a multimorbilidade são biomarcadores clínicos importantes para o estudo do envelhecimento humano. Demonstrou-se que a fragilidade e a multimorbilidade estão ambas associadas ao risco de incapacidade, de internamento e de mortalidade. Entre fragilidade e multimorbilidade existe a probabilidade de uma relação causal bidirecional: a fragilidade pode predispor ao aparecimento de multimorbilidade, mas também resultar da existência de múltiplas doenças crónicas. Embora conceitos separados, é aparente que existe uma grande sobreposição entre fragilidade e multimorbilidade

Mário Pinto
Rosália Amorim

Um travão sempre à mão

António Costa, primeiro-ministro, tem o travão sempre à mão. A pressão da pandemia sobre o Serviço Nacional de Saúde está a diminuir, mas o número de infetados tem vindo a aumentar. As mortes têm vindo a descer, mas o R(t) (índice de transmissibilidade) tem registado um crescimento. A linha vermelha traçada pelo governo pode ser alcançada no prazo de duas a quatro semanas, apontam os especialistas, e todo o cuidado é pouco na gestão da covid-19.

Rosália Amorim
José Crespo Carvalho

É fartar, vilanagem

Se é certo que estamos em fase de cumprir um plano de desconfinamento que, já de si, e apesar da abertura proposta, não é senão mais um atentado às liberdades individuais (já todos o sabemos), temos, por outro lado, aquilo que dentro de determinadas regras pode ser exequível. E estamos perante uma troca vital a fazer: o "fartai vilanagem" contra o "bom senso". O "tudo nos é permitido" contra o "bom senso". O "vamos dar cabo disto tudo de uma vez" contra o "vamos devagarinho", passo por passo, retomar o que nos pertence e as liberdades que têm ficado esquecidas.

José Crespo de Carvalho
Sebastião Bugalho

O antimoderno

Na Rua de São Bento, dava-se um almoço anual. Numa morada apalaçada, adquirida decadente mas feita bonita pelo anfitrião, reuniam-se o professor e respetivos assistentes. No repasto, de data certa no dia do santo que partilhava o nome com o decano, Pedro Soares Martinez cultivava a relação com os seus discípulos do Direito. Deles, há três impressões que prevalecem após o seu desaparecimento, aos 95 anos, há escassos dias. A primeira, a perseverança das suas convicções, mesmo que ultrapassadas pelo tempo e pelo regime em vigor. A segunda, o seu sentido de humor, provocador e, por vezes, até autodepreciativo. A terceira, uma tentação algo cruel no que a avaliações diz respeito. "Deu-me cabo da média" é, eventualmente, o comentário mais repetido; a maioria, com um sorriso amargo, mas órfão de rancor.

Sebastião Bugalho