Opinião

Daniel Deusdado

A TAP é o princípio do fim de António Costa

No princípio era o verbo. No final há de ser a dívida, estratosférica. Pode António Costa sobreviver a mais esta gigantesca hecatombe tendo debaixo dos pés um Governo minoritário, sequestrado por uma Gerigonça que vota sempre por mais despesa? Nenhum português ficará incólume às consequências de uma tragédia económica tão gigantesca como a da TAP onde, só na primeira tranche, entram 1200 milhões de euros para serem praticamente engolidos de imediato pelos prejuízos deste ano. Junte-se a isto a despesa inquantificável para o SNS e apoio social da covid-19, e não há palavras para explicar o que nos aconteceu em tão pouco tempo.

Daniel Deusdado
Leonídio Paulo Ferreira

Europa seis meses nas mãos de Merkel, ou seja, bem entregue

Bem me disse o biógrafo da então candidata democrata-cristã a chanceler que Ângela Merkel era capaz de surpreender. E aconteceu logo naquelas eleições alemãs de 2005, que cobri para o DN, pois derrotou o social-democrata Gerhard Schröder e assumiu a liderança do país, posição em que se encontra até hoje, depois de mais três vitórias. Que seja a Alemanha, ou melhor ela, a encabeçar a reação europeia à crise gerada pela pandemia, é pois um sinal de esperança para todos.

Leonídio Paulo Ferreira
Gina C. Lemos

Pergunta de partida: O que determina percursos de sucesso educativo?

O nosso apetite pelo dramático impele-nos a espreitar os rankings escolares, mesmo quando sabemos das suas limitações. É preciso ver o mundo tal como ele é, com factualidade. Isso implica estarmos dispostos a mudar a nossa visão do mundo, implica estarmos prontos para reconhecer a nossa reação instintiva e implica estarmos disponíveis para nutrir o nosso pensamento crítico. Ora, isso faz-se com humildade, curiosidade e abertura ao espanto. Até porque somos capazes de perceber o mundo corretamente sem termos de o aprender de cor. Hans Rosling explica isto muito bem no seu livro "Factfulness".

Gina C. Lemos
Fernando Jorge Cardoso

Cabo Delgado: jihadismo, "nova guerra" ou revolta popular?

Existe hoje uma profusão de (des)informação sobre a guerra em Cabo Delgado, que confere maior ou menor prioridade a fatores explicativos da mesma, nomeadamente conflitos associados à descoberta de gás (maldição dos recursos), falhas de governação associadas a "novas guerras" autofinanciadas com recursos "transportáveis" ou revolta popular originada por ressentimentos contra o Estado e "senhores" locais, por ocupação de terras, ausência de investimentos em infraestruturas e serviços públicos e falta de empregos. Na verdade, a única explicação que tem sido consensual é de a guerra não ser provocada por tensões entre a Frelimo e a Renamo (fação oficial ou dissidente), que se distanciaram desde o início e até hoje deste conflito.

Fernando Jorge Cardoso
Bernardo Ivo Cruz

Há 75 anos a tentar salvar a Humanidade de si mesma

Todos os anos em setembro as ruas de Manhattan em Nova Iorque transformam-se no centro das reclamações do Mundo. Enquanto os líderes dos Países se reúnem na sede das Nações Unidas para debaterem o estado do Planeta, pessoas vindas de todos os pontos do Globo manifestam-se a favor ou contra todas as causas imagináveis, desde questões que mobilizam milhões como a defesa dos direitos humanos ou o combate às alterações climáticas, até questiúnculas tão obscuras que parecem importantes para apenas uma mão cheia de ativistas.

Bernardo Ivo Cruz
José Ribeiro e Castro

Sefarditas: de Espanha, nem bom vento, nem bom argumento

Quando um governo detecta problemas na aplicação de uma lei, não salta a pés juntos sobre os cidadãos, nem sobre a própria lei. Avalia o problema, discute-o com os interessados, define medidas administrativas que assegurem a boa aplicação da lei, reconduzindo-a ao seu propósito. Não sendo isto suficiente, prepara e faz adoptar novas normas regulamentares, que, afinando o processo administrativo, assegurem a aplicação correcta da lei. Se o governo for democrático e aberto, prepara a revisão regulamentar em diálogo com os sectores relevantes, assim promovendo melhores normativos e protegendo o capital de confiança na lei e na Administração, que sempre importa. Só em último caso parte para rever a lei, se todas as etapas anteriores se revelaram impossíveis, inadequadas ou insuficientes. E, se for democrático, empreende a revisão da lei pelos processos constitucionalmente previstos, sem truques nem subterfúgios, e por métodos transparentes e democráticos.

José Ribeiro e Castro
Ruy Castro

A queima dos arquivos-bomba

Se o leitor estiver a considerar a formação de uma quadrilha para fins escusos - em toda cidade do mundo, a qualquer momento, haverá alguém pensando nisso -, é bom saber que, como todas as empreitadas comerciais, esta também tem riscos. Um deles é o que acontece quando os interesses de seus membros não coincidem. Mesmo nas melhores quadrilhas, cedo ou tarde um desses membros se sente abandonado, traído ou até entregue à justiça pelos antigos colegas. Nesse caso, sua única arma será tornar-se um arquivo vivo, composto de informações que acumulou durante o tempo em que foi membro efetivo da organização, informações estas que serão de grande interesse para a lei - o que obrigará seu ex-chefe, docemente constrangido, à pratica conhecida no Brasil como "queima de arquivo".

Ruy Castro
Antonio Sáez Delgado

Espanha e Portugal: uma fronteira de papel

A fronteira entre Portugal e Espanha tem 1214 quilómetros. Se a colocássemos na horizontal, esticada, daria perfeitamente para dividir a Península em norte e sul, mas também, ao mesmo tempo, daria para unir, por meio de uma linha invisível, o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo. As fronteiras são as cicatrizes da história - a frase tornou-se célebre com Robert Schuman. Cicatrizes visíveis na superfície da terra, no caso europeu, felizmente ultrapassadas. Provavelmente por isso, porque ninguém gosta de viver ao pé de uma cicatriz, os habitantes dos territórios mais próximos à fronteira chamam-lhe "raia", de uma maneira simples, sem mais, quase como se fosse o resultado de uma brincadeira infantil.

Antonio Sáez Delgado
Anselmo Borges

Desconfinar a Igreja (1)

Chegam-me vozes a cantar esperança no novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, bispo de Setúbal. Eu próprio disse a Natália Faria, do Público, quando imediatamente a seguir à eleição me perguntou se a sua escolha constituía garantia de rejuvenescimento: "Neste momento em que, no meu entender, a Conferência Episcopal precisa de um novo impulso, ele será capaz de assegurar o rejuvenescimento necessário. Trata-se de uma figura destacada do ponto de vista intelectual, e, por outro lado, dedicado aos outros e à sociedade. E tem uma gigantesca experiência internacional." Tendo vivido em Roma como superior-geral dos padres dehonianos, presentes em 38 países, conhece o que se passa também no Vaticano e, sobretudo, vive o espírito do Papa Francisco. Anima-o o desprendimento pessoal e uma "Igreja em saída", em desconfinamento, no sentido do abandono de estruturas de poder medieval, como insiste Francisco.

Anselmo Borges
Maria Antónia de Almeida Santos

Verão em tempos de pandemia

Todas as doenças têm variáveis e imponderáveis. O próprio sistema imunitário varia de indivíduo para indivíduo e, também por isso, há sempre algo de particular e característico na reação a uma patologia e na interação do doente com o contexto da doença. Isto é válido também para o surto, a epidemia e a pandemia, sendo certo que a diferença é que, aí, falamos de grupos. Há uma conjuntura específica quer quando falamos de políticas de resposta terapêutica quer quando falamos de medidas de mitigação e profilaxia.

Maria Antónia Almeida Santos
Viriato Soromenho-Marques

A pandemia da economia viral

John Bolton não resistiu à oportunidade de fazer um sucesso editorial com um livro contando a sua passagem pela Administração Trump (The Room Where it Happened. A White House Memoir, Simon Schuster, 2020) povoado de pequenas anedotas fastidiosas, em que se destaca, permanentemente, o deslumbramento do autor consigo próprio, contrastando com a tontice e a impreparação do presidente. Em Washington não há períodos de nojo e a noção de reserva ou honra há muito desapareceu de um pessoal político que está no mercado para fazer lucro, ou como dizia o falecido filósofo John Rawls a propósito do Congresso dos EUA, para "vender e comprar leis", como num leilão onde há muito se perdeu o sentido da decência. Num certo sentido, Bolton e todos os outros que não hesitaram em ir comer à mão de Trump são moralmente piores do que ele. Quem come à mesa do monstro, quem aceita os seus convites, as suas nomeações, quem bate palmas às enormidades que o atual inquilino da Casa Branca profere todos os dias, quem se manteve calado perante a corrosão das instituições republicanas do federalismo norte-americano, torna-se cúmplice dos atos presidenciais.

Viriato Soromenho-Marques
Adriano Moreira

Almirante Vieira Matias

A criação da ONU, não obstante ter mantido um critério do Conselho de Segurança que aristocratizava os cinco detentores do direito de veto, mostrou que tinha nesse ponto inquietações com hierarquias militares, e respetivas capacidades, porque no que toca à Assembleia Geral a utopia de criar um novo mundo de igualdade das etnias, culturas, religiões, esperando que os princípios do "mundo único", isto é sem guerras, e "a terra casa comum dos homens", animariam a real cooperação global, porque nenhum Estado teria sequer o poder de enfrentar, isolado, nem a criação da nova estrutura internacional nem os prováveis desafios possíveis.

Adriano Moreira
Leonídio Paulo Ferreira

Portugal tem as mais belas bibliotecas do mundo, uma delas sobre rodas

É estranho isto de as estatísticas afirmarem que os portugueses leem pouco e no entanto terem das mais belas bibliotecas do mundo. Digo isto depois de há dias ter visitado uma vez mais a Joanina em Coimbra e relembrando-me de como me impressionou o Real Gabinete Português de Leitura que os emigrantes construíram no Rio de Janeiro, mas também podia dizer isto porque a revista Vogue, na segunda-feira, publicou a sua escolha das "15 mais espetaculares bibliotecas do mundo". Na lista estão a Richelieu, em Paris, a do Congresso, em Washington, mas também a Joanina, a de Mafra e o Real Gabinete, ou seja três portuguesas!

Leonídio Paulo Ferreira