Opinião

Carla Bernardino

O muro e o arame farpado invisíveis

Uma imagem da beleza e do inconformismo aos 90 anos, mas com o braço direito partido, uma festa de 88 anos com um bolo com apenas duas velas - o sopro já não aguenta muitas mais -, ou uma solidão acompanhada de quem faz 92, a trincar a aliança e na companhia de amigos velhos: os que estão na fotografia e os poucos que restam na memória. O dinheiro não estica para pagar o lar, os medicamentos, as fraldas e a coragem. Três pessoas que têm estado a sós e esperam a ajuda de outras tantas para que cuidem delas. E há uma que as tem a todas, em parte, ao ombro e na carteira de uma pensão curta. Não são as três pessoas que estão sozinhas, são as quatro. Todas no limite de depressões e exaustões que não têm tempo para se curarem, mas que têm de se resignar e ser resilientes (para usar a expressão da nova felicidade e superação que se ouve em toda a parte).

Carla Bernardino
Ricardo Paes Mamede

O bom, o mau e o assustador nos serviços de saúde em Portugal

Todos os dias há notícias sobre problemas nos serviços públicos de saúde em Portugal. São tão insistentes que ficamos sem saber se o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está à beira do colapso ou se há quem queira fazê-lo pior do que está. O relatório "Health at a Glance 2019", publicado há dias pela OCDE, dá-nos uma ideia algo diferente. Permite-nos ver o bom e o menos bom do sistema no seu conjunto. Mostra-nos também o que há de assustador nas perspectivas de evolução do SNS.

Ricardo Paes Mamede
Rute Agulhas

Quando uma mãe coloca um filho no lixo

Quando uma mãe coloca um filho no lixo todo o país pára e desata a formar impressões e a tecer juízos de valor, com base na pouca informação disponível. Esticam-se dedos acusatórios e condena-se a mãe (a quem chamam monstro) em praça pública, antes ainda de serem conhecidos todos os contornos da situação. Outros há que se focam no facto de a mãe viver, alegadamente, na rua, o que remete para questões sociais, económicas e políticas associada à realidade das pessoas que vivem sem abrigo. Uma realidade que permanece ainda sem respostas suficientemente adequadas e que, sabemos, tantas vezes se [...]

Rute Agulhas
Ferreira Fernandes

Há só uma saída para o impasse espanhol: a política

Em quatro anos, sem partido maioritário nem coligação sólida, Espanha teve de recorrer a quatro eleições. Poderia ser um hábito instalado à espera de uma inevitável solução, mas o nosso vizinho evidenciou, ontem, uma crise maior - e estar mesmo aqui ao lado devia preocupar-nos mais do que acontece. Espanha não é questão de birras entre partidos que pode ser resolvida razoavelmente com gestão corrente entremeada por sobressaltos, como acontece há anos na Bélgica e em Itália; nem é só erro grave de políticos medíocres como o que levou ao Brexit.

Ferreira Fernandes
Leonídio Paulo Ferreira

Roleta espanhola agora com mais balas Vox

Nos últimos cinco anos, os espanhóis já tiveram o Podemos (agora Unidas Podemos) como terceiro maior partido, depois deram em abril esse estatuto ao Ciudadanos, agora é o Vox que emerge como a maior força depois dos tradicionais PSOE e PP. Não haverá maior prova de que o sistema partidário espanhol se tornou uma roleta russa e que, perante eleitores que cada vez mais saltitam de sigla em sigla, os líderes partidários se mostram incapazes de compromissos mínimos para bem do país. Preferiram até agora, tudo indica, fazer cálculos de poder ou ceder a implicações pessoais.

Leonídio Paulo Ferreira
Anselmo Borges

A pena de morte e o inferno (1)

Em 2017, celebrou-se os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal. Tive então na Universidade de Coimbra, a convite de José de Faria Costa, ex-Provedor de Justiça, uma intervenção sobre o tema, com o título "Teologia e Pena de Morte". O que aí fica é uma síntese dessa intervenção, com alguns acrescentos posteriores, e gostaria, à maneira de intróito, de lembrar que os cristãos são discípulos de um condenado à morte, executado na cruz...

Anselmo Borges
Margarida Balseiro Lopes

Para começar

PremiumComo as sucessivas eleições têm demonstrado há um divórcio claro entre eleitos e eleitores. Uma das principais reivindicações que as pessoas fazem é o reforço da transparência na atividade política. A anterior legislatura foi uma oportunidade perdida para a legalização do lobbying. Depois de anos a debater o tema na comissão eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas, no final o Parlamento acabou por desperdiçar a oportunidade de legislar sobre esta matéria. Esta regulamentação possibilitará a participação dos cidadãos e das empresas nos processos de formação das decisões públicas, algo fundamental num Estado de direito democrático. Além dos efeitos práticos que terá o controlo desta atividade, a sua regulamentação poderá ser uma mensagem muito importante para a sociedade: a de que também a classe política está empenhada em aumentar a transparência e em restaurar a confiança dos cidadãos no poder político. Erradicando, desde já, quaisquer possíveis preconceitos sobre este tema, importa ressalvar que legalizar o lobbying não é permitir qualquer comportamento que, atualmente, esteja tipificado penalmente como um ilícito criminal. O objetivo é apenas regular a atividade de decisão política, que, obviamente, é influenciada pela sociedade e pelos contactos que os decisores com esta estabelecem, tornando a informação pública e acessível a todos.

Margarida Balseiro Lopes
Maria do Rosário Pedreira

Modernices

PremiumO paleoantropólogo francês Yves Coppens - membro da equipa que descobriu o esqueleto de Lucy (um Australopithecus afarensis com mais de três milhões de anos) em 1974, mudando para sempre a nossa compreensão da evolução humana - contou, quando passou por Lisboa nos anos 1990, uma história deliciosa. A avó era profundamente católica e, como tal, não queria de maneira nenhuma aceitar que o homem descendesse do macaco (Australopithecus significa, aliás, "macaco do sul"). No entanto, diante do reconhecimento universal de que o neto era alvo, começou a pensar que talvez estivesse a ser demasiado radical. Então, chamou-o ao seu quarto, fechou a porta para ninguém a ouvir e, depois de o felicitar pelo êxito das suas conquistas, atalhou: "Olha, Yves, tu até podes descender do macaco, mas eu não."

Maria do Rosário Pedreira

Pontes sobre muros

PremiumPassam hoje 30 anos sobre o fim do Muro de Berlim. Nunca me pareceu muito legítimo que se falasse apenas em "queda", quando se fala do célebre muro. A verdade é que foi derrubado, e pela mesma ação humana que o construiu. Se isto à partida pode parecer um pormenor menos importante, ganha outra dimensão se pensarmos que foi um momento que ficou histórico também porque, pela paz e por via do diálogo, a humanidade conseguiu uma transição na ordem internacional através do consenso. Deveu-se apenas a alguma fraqueza da antiga URSS? Ou foi, de facto, um momento inspirador na história da cultura democrática europeia, aquele wind of change que os Scorpions imortalizaram na sua célebre balada? Talvez um pouco de ambos. Certo é que a necessidade de acabar com os "muros" que servem de obstáculo à paz e à tolerância nunca foi tão atual como hoje.

"Todo o mundo tem relógio, mas perdemos o tempo"

PremiumA frase certeira é de Célia Xakriabá. Ao longo desta semana, e durante os próximos dias, a Associação Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, em parceria com organizações da sociedade civil, dá corpo à campanha Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Uma delegação de representantes indígenas composta por Alberto Terena, Angela Kaxuyana, Celia Xakriabá, Dinaman Tuxá, Elizeu Guarani Kaiowá e Kretã Kaingang esteve nesta semana no Parlamento Europeu. Não se tratou de uma visita de cortesia, mas antes de uma denúncia das sistemáticas violações contra os povos indígenas brasileiros, bastante agravadas desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil.

Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira: Este muro era para impedir que saíssem 

A frincha no muro tem escassos milímetros, mas chega para se ver a faixa da morte, com a sua velha torre de controlo e o caminho usado pelos guardas fronteiriços para fazer a patrulha. Dos espigões de ferro que se erguiam do solo (a "relva de Estaline") e do arame farpado que os antecedia já não há vestígios. Ao fundo, talvez a uns 60 metros, surge o obstáculo final, outro muro de betão, mais alto e sem quaisquer aberturas. E visível ainda, com dificuldade, aparece o topo dos edifícios do outro lado, o livre, da Bernauer Strasse, uma rua berlinense cheia de histórias trágicas da Guerra Fria, daquelas que inspiraram os primeiros romances de espionagem de John le Carré. É esta experiência de um tempo de prisão que acabou a 9 de novembro de 1989 que oferece o Memorial do Muro de Berlim, hoje a parte mais bem conservada dessa fronteira artificial que separava Berlim Oriental, sob tutela comunista, de Berlim Ocidental, parte da RFA, fiel aos valores da democracia e da liberdade.

Leonídio Paulo Ferreira

Ferreira Fernandes: Um Muro, como Belas-Artes

Alguém disse do Evereste: "Escalá-lo, porquê?! Porque está lá." O mesmo talvez se passe com os muros. Estes nunca são feitos com o propósito provocador de serem saltados, mas, se calhar, porque estão ali, incitem ao desafio... Claro que os antigos comunistas russos não queriam que os dissidentes alemães fugissem, nem Donald Trump quer que os latinos lhe invadam os campos de golfe. Ambos sabem que o autor da frase sobre o Evereste, o alpinista britânico George Mallory (1886-1924), acabou por desaparecer nos Himalaias sem atingir o topo (o corpo só foi encontrado em 1999). Os obstáculos quase sempre acabam por obstaculizar.

João Taborda da Gama

Faltas

E tu, o que te falta para seres feliz, perguntou ele, e para ti o que é a felicidade, respondeu ela, antes de se atravessarem na chuva de Lisboa, que parecia a de Londres, disse ele, com um quarto de Airbnb entre uma semana de turismo tecnológico e o resto da vida na terra de cada um; quarto dele ou dela, ainda não tinham decidido, e nenhum queria ser o primeiro a falar disso. As ruas estavam desertas - nas histórias de amor, as ruas não estão sempre desertas? - até ao quarto dele na Graça, que nenhum conseguia pronunciar. Acabou por ser no quarto dele, que ele lhe tinha dito que era o apartamento com a vista mais amazing de Lisboa, e ela fingiu acreditar, e disse que queria ver essa vista, fazendo um gesto com a mão de tentar cortar a neblina como se se visse alguma coisa, ou como se fossem ver a vista, e ele riu-se e disse que até lá ia resolver a neblina, que ia inventar uns óculos de VR para isso, não estavam na Web Summit?, não era ele o fundador de uma empresa tecnológica?

João Taborda da Gama
Ferreira Fernandes

Do que falamos quando nos estamos a indignar?

Nunca vi a Tânia Ribas de Oliveira a comentar a Chechénia, problema geopolítico bastante complicado sobre o qual, não me lembro mas é possível que sim, eu talvez já tenha dado uns bitaites. Talvez eu tenha mesmo escrito uma crónica inteira sobre a Chechénia. E provavelmente não disse nada. Que querem, não sou o Rubem Braga, cronista brasileiro sobre quem o poeta Manuel Bandeira, seu patrício, dizia: "O Rubem é sempre bom, e quando sem assunto, então, é ótimo."

Ferreira Fernandes
Rita Rodrigues

A qualidade não pode ter preço

É sabido que consumidores confiantes são fundamentais para podermos construir uma economia mais forte. Mas, neste papel de agente do consumo, quase todos os dias enfrentamos a angústia mental de sentirmos que temos de escolher entre a qualidade de um produto ou serviço e o preço que devemos pagar por ele. Vários estudos sobre o comportamento dos consumidores dizem que a maioria das pessoas acredita ao mesmo tempo que preços baixos significam bom negócio e que preços baixos é igual a qualidade inferior.

Rita Rodrigues
Paulo Pedroso

O espetáculo não pode parar

A Sophia voltou à Web Summit para se confessar mais humana do que dizia. E o jornalista do Público, decidiu atribuir à desconstrução do mito da sua inteligência artificial, um atributo humano. Escreveu que teve uma presença humilde, por contraste com as suas aparições anteriores, afinal golpes publicitários de arrogância, não do robot, mas dos que andaram a promover este chatbot como algo bastante mais avançado e independente do que aquilo que realmente é.

Paulo Pedroso
Daniel Deusdado

Não estamos a salvar a Terra, estamos a salvar-nos a nós

Talvez a figura mais empolgante da WebSummit tenha sido Christiana Figueres, a costa-riquenha de 63 anos que desempenhou o papel de Secretária Executiva do "Acordo de Paris", em 2016. Ela disse a frase que está no título deste texto e representa uma boa síntese sobre o essencial do que estamos a viver. O planeta continuará. Talvez sem a espécie humana ou, pelo menos a curto prazo, sem a vida extraordinária que atingimos no século XXI. O problema é nosso. Por essa razão, temos mesmo de mudar de vida e ainda vamos a tempo.

Daniel Deusdado
Catarina Reis

"Meninas" e "meninos" do meu Porto

Lisboa, 2017. Aconteceu numa caixa de supermercado, a primeira vez que senti a falta do meu Porto. A "menina" não me lançou uma nota qualquer sobre o tempo que fazia lá fora (muito chuvoso, para um mês como maio) nem comentou a promoção de papel de cozinha que eu estava a aproveitar. Um a um, cada artigo ia acionando o bip na leitura de código de barras da caixa, à medida que eu enchia o meu saco e pensava como aquela "menina" (como chamamos lá no meu norte, quer a "menina" tenho 8 ou 80 anos) jamais saberia sequer de que cor eram os meus cabelos. Nunca levantou a cabeça e eu nunca lhe soube a cor dos olhos.

Catarina Reis