Vice-presidente do Brasil usa vídeo falso para negar incêndios na Amazónia

Na publicação de Hamilton Mourão, também replicada pelo ministro do ambiente, surge em destaque um mico-leão-dourado, animal que jamais habitou a floresta amazónica e vive noutro ecossistema do país, a Mata Atlântica.

O vice-presidente e o ministro do meio ambiente do Brasil publicaram um vídeo na noite de quarta-feira (9 de setembro) a garantir que não há queimadas na Amazónia, como vem sendo noticiado no país e no estrangeiro com base em dados de institutos oficiais. O problema é que a peça de propaganda do governo de Jair Bolsonaro mostra imagens da Mata Atlântica e não da Amazónia, conforme é facilmente percetível pela presença de um mico-leão-dourado, espécie que habita o primeiro e não o segundo daqueles ecossistemas.

"De que lado você está? De quem preserva de verdade ou de quem manipula seus sentimentos? O Brasil é o país que mais preserva suas florestas nativas no mundo. Essa é a verdade. Nós cuidamos!", escreveu o vice Hamilton Mourão, como acrescento ao vídeo de perto de dois minutos falado em inglês e legendado em português.

"Recebi este vídeo, "Amazónia não está queimando'", escreveu, por sua vez o ministro Ricardo Salles.

Na peça, que é parte de campanha produzida pela Associação de Criadores do Pará (Acripará) e exibe diferentes imagens da floresta, de animais e de populações indígenas, a narradora pergunta "você está sentindo cheiro de fumaça?" e responde a si mesma "claro que não!". Segundo a campanha, as queimadas são utilizadas na sua maioria por comunidades tradicionais indígenas e pequenos produtores. "Portanto", concluem o vídeo, o vice.presidente e o ministro, "são culturais e de pequenas proporções".

O presidente da Acripará admitiu o erro. Para Maurício Fraga Filho o uso do mico-leão-dourado no vídeo foi uma "gafe". "O mais importante do vídeo é a mensagem que ele passa, e realmente foi uma gafe essa do mico-leão-dourado. O objetivo foi tentar defender o setor produtivo, o agronegócio da Amazônia", disse.

Mourão, por sua vez, recusou tratar-se de gafe. "Aquilo é uma integração Amazónia-Mata Atlântica", justificou-se a jornalistas já nesta quinta, dia 10 de setembro.

O assunto, como seria de esperar, foi dos mais comentados nas redes sociais - até porque "mico" é uma expressão local que equivale a "passar vergonha".

Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais indicam que, em agosto, a Amazónia teve 29.307 registos de queimadas.

Houve uma uma queda de cerca de 5,2% em relação a agosto de 2019, quando foram registados 30,9 mil focos de calor. O número, entretanto, é 12,4% maior do que a média histórica registada para o mês, que é de 26.082 focos, e o segundo maior registado desde 2010.

Ao longo das últimas horas, o ministro Salles ainda rebateu críticas do ator Leonardo Di Caprio à política do governo de Bolsonaro para a Amazónia.

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