Testes a todos os convidados. As festas VIP onde não se usa máscara

De Nova Iorque à Riviera francesa ou às ilhas gregas, a tendência VIP é realizar festas e oferecer testes de covid-19 aos convidados. Para que os eventos não obriguem ao uso de máscara. Especialistas apontam que a tendência não é totalmente segura e levanta questões éticas.

É uma tendência entre os famosos e mais ricos. Organizam festas privadas em que os convidados fazem todos testes à covid-19 para que não seja necessário usar máscaras nos convívios nas zonas onde se juntam os mais ricos ou influentes do planeta, como a Riviera francesa, Nova Iorque ou as ilhas gregas. As elites recorrem a testes de PCR ou mesmo a testes rápidos. Mas esta medida preventiva não é garantia de segurança, alertam os profissionais de saúde, além de levantar questões éticas.

No passado fim de semana, em dezenas de relatos de influencers de moda de todo o mundo, uma imagem paradisíaca foi repetida, segundo o jornal El Pais. Em jatos privados, muitas celebridades rumaram a França para comemorar o duplo aniversário do fotógrafo Dylan Don e do empresário Carl Hirschmann numa villa na Riviera Francesa. Entre os convidados, estava uma influencer espanhola Miranda Makaroff, que até é conhecida por ser anti-vacinas. "Todas as pessoas que foram convidadas passaram no cobiçado teste alguns dias antes e esta era uma área de dança segura. Dançamos muito! Precisávamos disto, para os nossos corações e almas", postou na sua conta no Instagram.

Não foi a única a colocar este tipo de mensagem sobre a festa. Outros participantes postaram vídeos a contar que os convidados lotavam uma pista de dança noturna sem as medidas de segurança ou distância social exigidas.

O anfitrião e proprietário da villa era um dos aniversariantes, o empresário Carl Hirschmann, nascido em Zurique em 1980 e filho de Carl Hirschmann Sr., fundador dos serviços de aviação privada para empresários Jet Aviation. Foi uma festa sem máscaras, com uma pequena multidão que só é possível juntar quando há dinheiro para tornar o espaço sem restrições: ofereceram testes a todos os convidados, para garantir que não havia infetados.

O preço médio do teste realizado aos participantes - o PCR - varia entre 60 e 150 euros na saúde privada, em termos da realidade espanhola. A companheira de Hirschmann, a atriz e apresentadora de televisão italiana Fiammetta Cicogna, publicou nas redes sociais mais detalhes sobre como foram feitos os testes entre os convidados, tudo para evidenciar que foi uma festa segura.

Nos Estados Unidos, o fenómeno parece mais do que estabelecido. Os testes à covid em casa dos milionários vulgarizaram-se quando os ricos e famosos querem fazer "churrascos, festas particulares ou até mesmo casamentos", segundo o The New York Times, referindo-se sobretudo a Hamptons, uma zona com um grupo de villas de luxo, na costa nova-iorquina.

Situação que contrasta com o cenário do resto do mesmo município de Suffolk, onde, segundo o jornal, "não há infraestruturas para testes rápidos e o serviço privado é caro: até 500 dólares por teste". A maioria dos médicos nem tem o equipamento para fazer os testes e os doentes que estão dispostos a pagar por vezes têm de esperar uma semana.

Tal não se passa com os turistas mais ricos, que recorreram a um serviço privado exclusivo apenas para residentes em Hamptons. Segundo o diário norte-americano, houve necessidade de triplicar equipamentos para responder à alta procura de testes rápidos para eventos sem máscara. Hotéis e organizadores de concertos estão igualmente a recorrer a serviços de testes para levarem a cabo eventos.

Mas fica garantido que não há contágio? "Embora, obviamente, seja mais seguro do que nenhum teste, não há recomendação sanitária da OMS a garantir que esse método seja eficaz nesses casos", alerta o chefe de infecciologia do Hospital de Vall d'Hebron, Benito Almirante, ao jornal El Pais. Explica que se pode fazer o teste sem saber que se acabou de contrair o vírus, estar com carga viral muito baixa e o resultado dar negativo. "Dois dias depois, naquela festa, a carga viral estará maior e pode haver transmissão e contágio", explica.

Além da incerteza quanto à suposta "segurança" proporcionada pelos testes rápidos diante de encontros entre grupos sem proteção ou distância, o médico aponta questões éticas nesta nova tendência. "O direito à diversão é como qualquer outro, mas, como profissional médico, neste momento, a diversão não é prioridade", afirma.

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