Taubira sai em choque com Hollande e abre caminho para o Eliseu

Ex-ministra é popular à esquerda e pode ser candidata às presidenciais de 2017. Saída deve-se a oposição a novas leis antiterroristas.

"Por vezes, resistir é ficar; por vezes, resistir é partir. Por fidelidade a si próprio, e aos outros". Foi com esta mensagem na sua conta do Twitter que Christiane Taubira anunciou ontem a demissão do cargo de ministra da Justiça, que ocupava desde maio de 2012, quando François Hollande foi eleito presidente da República.

E foi precisamente em choque com a política do presidente que esta natural da Guiana francesa, de 63 anos, decidiu sábado passado abandonar o cargo como expressão do desacordo face ao projeto de revisão constitucional prevendo a perda da nacionalidade para os detentores de dupla nacionalidade condenados por terrorismo, assim como a sua oposição à aplicação do estado de emergência e a nova legislação sobre o crime organizado. O sucessor é o socialista e professor de Direito Jean-Jacques Urvoas, especialista em questões de segurança e considerado próximo do primeiro-ministro Manuel Valls, que presidia à comissão permanente da Assembleia Nacional para as leis constitucionais, legislação e administração geral da República.

Na conferência de imprensa em que justificou a demissão, Taubira condenou a política antiterrorista de Hollande e Valls, afirmando que as medidas em causa representam "uma vitória (...), ainda que simbólica, do terrorismo". E, para não ficarem dúvidas, afirmou ter saído do governo devido "a um desacordo político de monta" e para "permanecer fiel" a si própria. Por outro lado, destacou o trabalho realizado à frente da Justiça, que considerou ter "ganho solidez e vitalidade".

Para evidenciar ainda mais o nível de oposição às novas medidas, Taubira anunciou a saída do governo no mesmo dia em que Valls apresentou o projeto de reforma constitucional na Assembleia Nacional (ver caixa). E como sublinhava ontem à FranceTV o politólogo Jean-Daniel Lévy foi a ex-ministra que escolheu sair, não foi Hollande ou Valls que a pressionaram nesse sentido.

Ao invocar a orientação legislativa do combate antiterrorista, fortemente criticada à esquerda que a considera uma "deriva autoritária" e uma "captura" indevida do poder legislativo pelo executivo, Taubira reivindica uma posição suscetível de abrir caminho para uma candidatura presidencial em 2017. Uma candidatura à esquerda contra Hollande. O seu percurso político - Taubira integra uma formação política que representa na Guiana o Partido Radical de Esquerda, pela qual foi candidata nas presidenciais de 2002 - e o nível de popularidade de que sempre desfrutou no governo sustentam essa possibilidade.

Para a jornalista Nathalie Saint Cricq, da France 2, Taubira vai permanecer em silêncio, mas "não por muito tempo" e tem, sem dúvida, perfil para protagonizar uma alternativa ao duo "liberal securitário" de Valls e do ministro da Economia Emmanuel Macron.

Popular à esquerda

Taubira era a ministra mais popular entre os eleitores da Frente de Esquerda (que engloba dos comunistas a alguma extrema-esquerda, alguns socialistas e ecologistas), a terceira mais popular para os Verdes (que participam no governo de Valls) e a quarta para o eleitorado socialista, recordava a FranceTV. Com a sua saída, Hollande perde espaço à esquerda, onde já não era propriamente popular.

Segundo Jean-Daniel Lévy, Taubira tem peso político quanto baste para insistir na organização de primárias na esquerda para as presidenciais de 2017. Na atualidade, a ex-ministra representa muito mais do que os 2,32% obtidos em 2002 (dos quais 52,7% na sua Guiana natal) como testemunham os números citados pela France TV. E tem um património legislativo relevante em matérias que a esquerda tem como bandeiras, das questões do assédio sexual ao casamento de pessoas do mesmo sexo, entre outras questões. Taubira fez campanha pelo "não" no referendo de 2005 sobre a Constituição europeia. Noutro plano, opôs-se à lei de 2004 que interditava o uso de trajes ou sinais que manifestem "de forma ostensiva uma orientação religiosa".

Oposição satisfeita

Sintoma da popularidade e alinhamento político de Taubira, partidos e personalidades à esquerda dos socialistas lamentaram a saída, elogiando as qualidades da ex-ministra. Pelo contrário, Os Republicanos (oposição, liderados pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy), a demissão foi saudada.

Pelas suas origens, Taubira foi alvo de vários comentários sexistas e racistas, sendo destes últimos o mais conhecido o protagonizado pelo jornal Minute, de extrema-direita, que publicou uma foto da então ministra com a legenda: "Astuta como um macaco, Taubira encontra a banana". O diretor da publicação foi condenado a uma pena de prisão suspensa e a pagar dez mil euros à visada.

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