Quem quer suceder a Hollande no Eliseu?

A nove meses das presidenciais, a recandidatura do atual chefe do Estado perde fôlego, entre polémicas, atentados e indicadores económicos, sendo a lista de rivais longa.

Quando faltam nove meses para as eleições presidenciais em França, as hipóteses de reeleição do atual chefe do Estado, François Hollande, de 61 anos, parecem cada vez mais reduzidas. Apesar de um europeu de futebol sem grandes sobressaltos em matéria de segurança, o presidente socialista enfrenta o peso de três grandes ataques terroristas em solo francês no espaço de 18 meses, greves e manifestações constantes por causa de reformas económicas altamente contestadas, uma taxa de desemprego estagnada nos 10%, o incumprimento das metas do défice exigidas a nível europeu, a ameaça dos defensores de um referendo sobre a saída francesa da UE, desarticulação e troca de críticas entre membros do governo, a multiplicação de candidatos ao Eliseu - entre declarados e potenciais. Isto só para citar alguns dos desafios do homem que chegou à presidência de França em maio de 2012.

67% dos franceses não confiam no presidente e no seu governo para lutar contra o terrorismo, revelou uma sondagem Ifop, realizada para o jornal Le Figaro após o ataque que matou 84 pessoas em Nice, na Riviera Francesa, na noite do feriado nacional do 14 de Julho. Enquanto agora apenas 33% dos inquiridos confiam no governo, nos barómetros semelhantes do Ifop, realizados entre janeiro do ano passado e janeiro deste ano, o nível de confiança dos franceses situava-se entre os 49% e os 51%. A queda foi, em seis meses, de 16%. Agora um em cada dois franceses considera que o país está em guerra.

Após os atentados de janeiro ao Charlie Hebdo e a um supermercado judaico e de novembro ao Bataclan e a várias esplanadas de cafés, Hollande conseguiu gerar um sentimento de unidade e de coesão com os partidos da oposição. Até à hora de almoço do dia 14, altura em que foi difundida a tradicional entrevista do chefe do Estado francês no Dia da Bastilha, as maiores polémicas que aquele enfrentava eram as críticas feitas num comício do En Marche! pelo ministro da Economia, Emmanuel Macron, e o salário mensal de quase dez mil euros do cabeleireiro do Eliseu. Ao final da noite tudo mudou.

Pouco depois de ter começado o fogo-de-artifício no Passeio dos Ingleses, em Nice, um tunisino de 31 anos atropelou mortalmente 84 pessoas e fez mais de 200 feridos. O ataque foi posteriormente reivindicado pelo Estado Islâmico. Um dia antes, quase à mesma hora, o primeiro-ministro e o ministro do Interior falaram sobre o ataque em duas estações de televisão e, causando algum espanto, divergiram nas suas afirmações. "É um terrorista sem dúvida ligado ao islamismo radical de uma forma ou de outra", declarava, na France 2, o chefe do governo, Manuel Valls. Já o ministro Bernard Cazeneuve, quando questionado sobre se podia afirmar que o tunisino tinha ligações ao Estado Islâmico, respondeu com um "não". E explicou: "Há um inquérito judiciário que revelará se este indivíduo agiu às ordens de outros indivíduos, se agiu impelido por mensagens do Daesh (nome árabe do Estado Islâmico) que apelam ao crime pelo facto de sofrer de um desequilíbrio, veremos se há uma relação ou não."

Os acontecimentos levaram a líder do partido Frente Nacional a pedir a demissão de Cazeneuve. "Em qualquer outro país do mundo um ministro com um balanço de mortalidade tão horrendo como o de Cazeneuve - 250 mortos em 18 meses - ter-se-ia demitido", declarou Marine Le Pen. Até então, a dirigente da extrema-direita francesa andava entretida com o impacto da vitória do brexit no referendo britânico de 23 de junho, prometendo uma consulta semelhante aos franceses se chegar a presidente nas eleições de 2017. Le Pen fez ouvidos moucos aos apelos de unidade lançados por Hollande, tal como outros dois potenciais rivais na corrida ao Eliseu: o ex-presidente Nicolas Sarkozy e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, ambos candidatos às primárias de Os Republicanos que, em novembro, decidirão quem será o candidato da direita às presidenciais.

"Tudo o que deveria ter sido feito nestes 18 meses não foi", disse no domingo à TF1 Sarkozy, que além de ex-presidente é também ex-ministro do Interior de França (ficou conhecido por incendiar os subúrbios parisienses ao chamar aos jovens desses bairros racaille, escumalha em português). "Devíamos ter feito mais, melhor, mais depressa", disse, por seu lado, à BFMTV Alain Juppé. "Antes [de Nice] havia um reflexo coletivo de apoiar o governo mas agora a necessidade de culpar alguém destruiu isso", afirmou à Reuters o analista político Thomas Guenola. A questão é que os franceses parecem fartos. Segundo um inquérito interativo Harris para a revista Marianne, realizado entre 24 e 27 de junho junto de 3796 maiores de 18 anos e divulgado no início deste mês, 82% dos inquiridos não querem Hollande como candidato ao Eliseu, 71% não querem Sarkozy; 63% preferem Juppé a Sarkozy, 62% preferem Macron a Hollande; 38% apoiariam a candidatura de Marine Le Pen, 32% a de François Bayrou e 31% a de Jean-Luc Mélenchon. A nove meses de distância tudo parece possível.

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