Puurs, o pequeno município belga que vai salvar o mundo

A meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia, uma localidade de 16 mil habitantes orgulha-se de não ter desemprego e de albergar a fábrica da Pfizer, de onde vão sair, até final do ano, 50 milhões de doses da vacina contra a covid-19.

Cinco quilómetros é a distância aproximada que separa dois dos pontos mais importantes da localidade de Puurs, a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia, na Bélgica. Um deles foi de onde saiu uma das mais famosas cervejas do mundo, o outro é onde está a nascer a nova esperança da humanidade, que é como quem diz a vacina da covid-19.

De um lado a fábrica da cerveja Duval Moortgat, de onde, depois da Primeira Guerra Mundial saíram os novos paladares belgas que serviram para suplantar a concorrência das cervejas que vinham da Escócia. Mais a norte, a fábrica da farmacêutica Pfizer, onde está a ser produzida, em conjunto com a BioNTech, a vacina para combater a pandemia de covid-19 e devolver a normalidade ao mundo.

Puurs tem apenas 16 mil habitantes, mas a fábrica da farmacêutica prepara-se para colocar no mercado 50 milhões de doses da vacina até final do ano e outras 1350 milhões durante 2021. Há até quem diga que Puurs está na iminência de se tornar "o município que vai salvar o mundo".

Para já, o circo mediático está montado. Na passada quarta-feira cadeias de televisão de todo o mundo instalaram-se em frente da fábrica, afinal tinha chegado do Reino Unido o aval para começar a vacinar a população e, dali, iriam sair as primeiras doses rumo a Londres.

A fábrica está instalada naquela região há quase 60 anos. O seu porta-voz Koen Colpaert explicou ao jornal El País que a farmacêutica norte-americana Pfizer instalou-se na Bélgica após a Segunda Guerra Mundial, no decorrer da década de 1950. À semelhança de outras empresas americanas do mesmo ramo, foram atraídas por um país com grande tradição nesta área da farmacêutica, sobretudo por tratar-se de uma região com boas vias de comunicação, quer portuárias, quer aeroportuárias.

Inicialmente, a Pfizer montou um escritório em Bruxelas, tendo pouco depois construído a fábrica em Puurs, uma localidade de casas baixas onde, de acordo com o autarca Koen van den Heuval, o desemprego é praticamente inexistente.

"Estou orgulhoso por a Pfizer ter decidido fabricar aqui a sua vacina aqui. Os habitantes de Puurs também estão. Num período tão difícil, ajuda muito saber que estamos a fazer algo que será fundamental para o futuro", assumiu o presidente da Câmara Municipal, de 56 anos.

A pandemia obrigou as empresas instaladas em Puurs a recorrer às ajudas do estado belga para proteger os empregos. A Pfizer, por exemplo, criou cerca de 300 novos postos de trabalho por se ter quase em exclusivo à produção da vacina. "São empregos com salários altos, o que significa que somos competitivos pela qualidade dos nossos trabalhadores", assumiu Van den Heuval.

Aliás, de acordo com a associação patronal belga Essenscia estima que este ano o setor farmacêutico criou cerca de 2100 empregos. Puurs é um símbolo por ter a primeira fábrica do mundo a começar a distribuir maciçamente a vacina na Europa. Contudo, o resto do país está igualmente focado nessa produção, afinal as fábricas belgas da GSK, Sanofi, AstraZeneca, Johnson & Johnson, Inovio e Univercells também vão produzir vacinas.

A importância da Bélgica no desenvolvimento da vacina da covid-19 é explicado, em parte, por se tratar de um país que está num enclave logístico de primeira linha na Europa. O aeroporto de Liège foi mesmo escolhido pela Organização Mundial da Sde (OMS) como um dos oito centros para a distribuição de material médico, sendo que o aeroporto de Zaventem, em Bruxelas, é igualmente considerado infraestrutura fundamental para a distribuição da vacina.>

Fréderic D

ruck, secretário-geral da Essenscia, destaca que a Bélgica conseguiu criar pólos para a indústria, centros de investigação, hospitais, universidades e de administração de empresas. Além disso, recorda que o país teve papel fundamental na fabricação das vacinas contra a poliomielite e a hepatite B. "Nas empresas, as pessoas têm orgulho de poder lutar contra a pandemia. Aliás, esses trabalhadores podem regressar a casa, no final de cada dia, dizendo que fizeram algo pelo mundo", frisa.

Além das farmacêuticas propriamente ditas, há um enorme investimento nas áreas de investigação e desenvolvimento. "A Bélgica destaca-se pela especialização muito importante na área da investigação, que representa um sexto de todos os investimentos em toda a Europa", diz Marcus Wunderle, do Centro de Investigação e Informação Sócio-Política (CRISP).

Aliás, as entidades patronais assumem mesmo que a Bélgica é o país da União Europeia que mais investe em investigação e desenvolvimento no sector químico e farmacêutico. Em 2019, foram gastos 4500 milhões de euros.

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