"Por trás do carrapito de Simone Veil escondia-se o drama da deportação dos judeus"

Realizador de Simone Veil - Uma História Francesa - que passou em Lisboa no DocLisboa -, David Teboul conta ao DN como ainda criança se deixou fascinar pela primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu.

Em conversa ao telefone, David Teboul afirma que quando conheceu Veil confirmou que era mesmo a mulher de convicções cuja história pessoal - sobrevivente do Holocausto, lutadora pelos direitos das mulheres - a torna inigualável.

Yves Saint Laurent, Brigitte Bardot, Simone Veil. A biografia é o seu género de eleição?

Gosto da biografia porque é um género que me permite aprofundar assuntos que me interessam, através destas personagens. Agora estou a preparar um filme sobre Sigmund Freud.

Há alguma coisa em comum entre todas as personalidades que escolheu para os seus documentários?

São figuras de que gosto. Não escolho fazer a biografia de uma personalidade de que não goste. Mas há talvez outra coisa comum a todas elas, que é uma espécie de melancolia.

Simone Veil era uma personalidade que o fascinava desde a infância. Em entrevista ao Le Monde até contou uma história ligada ao carrapito...

Toda a minha relação com Simone Veil... eu fiquei muito impressionado com esta mulher e com aquele carrapito.

Quando conheceu Simone Veil pessoalmente, a mulher e o carrapito corresponderam às suas expectativas?

Completamente! Tinham-me dito que ela tinha uma personalidade difícil. E era verdade ao telefone, mas não quando a conheci pessoalmente. Eu sabia que por trás daquele carrapito se escondia todo o drama da deportação dos judeus, da guerra, e também da reconstrução no pós-guerra. Simone Veil foi uma mulher muito marcada pelas provas por que teve de passar. Os seus compromissos políticos são muito marcados pelo passado de deportada, pela experiência que teve da barbárie. Era isso que lhe dava uma estatura muito diferente da restante classe política.

Não foi fácil convencê-la a trabalhar consigo no documentário, certo?

De início não, mas quando nos conhecemos sim. Eu estava convencido de que ela ia acabar por aceitar, porque o que me interessava era abordar a mulher, a sua experiência. Mais do que a personalidade oficial.

O que é que o surpreendeu mais em Simone Veil?

O que mais me surpreendeu foi uma forma de atenção, de disponibilidade em relação aos outros. Era uma mulher que não era habitada por um sentimento de medo. O que me impressionou mesmo foi a coragem de Simone Veil. Era uma mulher muito determinada nas suas convicções. Tinha convicções fortes e não renunciava a elas. Ela não era influenciável.

Com a sua morte - a 30 de junho, aos 89 anos - foi o símbolo de toda uma geração que desapareceu?

Simone Veil era uma das últimas testemunhas [de uma época], era uma das últimas a ter essa autoridade em França. A ter vivido aquela experiência. Era ao mesmo tempo um símbolo no que dizia respeito à deportação, ao Holocausto, mas também um símbolo para as mulheres. Deixou um vazio na vida política francesa, mesmo se nos últimos anos já não estava muito presente. Nenhuma mulher política francesa vai representar o que Simone Veil representava.

A política francesa mudou muito nos últimos meses. Fala-se cada vez mais de paridade homem-mulher, mas continua a ser um mundo masculino...

A política é menos masculina nos últimos anos em França do que era no passado. Há paridade no governo, 40% dos eleitos da Assembleia Nacional são mulheres. Está a mudar. Simone Veil foi a primeira mulher política com esta importância em França.

Acha que é possível haver uma herdeira de Simone Veil na política francesa?

Não sei responder... A história de Simone Veil é tão única. Isso não quer dizer que não haja políticas com qualidades em França. Mas devido ao que ela viveu, à sua história, aos seus combates - como o direito ao aborto -, a violência que ela sofreu e ao mesmo tempo o afeto que recebeu fazem dela uma personagem à parte. Simone Veil jogava um pouco fora do tabuleiro. Espero que nenhuma mulher tenha de sofrer o que ela sofreu. Claro que há mulheres que têm muito talento. E vai haver mais. Mas é complicado comparar Simone Veil a outra mulher. Não é justo.

É esse passado trágico que fazia dela o que era...

Era uma mulher de convicções, uma mulher de valores humanistas, que detestava ideologias fosse qual fosse a sua natureza. Era uma mulher profundamente ligada às liberdades. Vejo mulheres com muito talento em França, mas estas características... Simone Veil tinha mais do que talento. Conseguia atrair pessoas muito para lá do seu campo político. Era uma mulher com convicções mas que não se identificava como partidária. O seu partido tinha pouca importância. Ela combatia os dogmatismos. Era um espírito livre. Simone Veil encarnava valores muito importantes para as mulheres. Ela costumava dizer que nada podia ser dado como adquirido. Tudo é de uma grande fragilidade e por isso é preciso estar muito alerta.

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