Oposição tenta boicotar tomada de posse do novo Presidente do Kosovo

Seis pessoas foram detidas por causa dos incidentes antes da cerimónia

O antigo chefe político dos separatistas albaneses do Kosovo, Hashim Thaçi, foi hoje investido Presidente numa cerimónia solene que a oposição nacionalista tentou boicotar ao lançar gás lacrimogéneo antes do seu início. Seis pessoas foram detidas.

Nos oito anos de independência do Kosovo, autoproclamada em 2008 após a separação da Sérvia, foi a primeira vez que se celebrou uma investidura pública do Presidente, um importante protagonista de "guerra da independência" (1996-1999) e que depois ocupou os cargos de primeiro-ministro e recentemente a pasta dos Negócios Estrangeiros.

A cerimónia decorreu na praça central de Skanderbeg, na capital Pristina, na presença de mais de 1000 convidados de cerca de 50 países, rodeados por um forte dispositivo policial.

Ao ato de investidura assistiram, entre outros convidados, a Presidente da Croácia, o primeiro-ministro da Albânia e representantes de outros Estados da região balcânica, mas sem a presença da Sérvia, que continua a não reconhecer a independência da sua antiga província.

Thaçi, 47 anos, prestou na quinta-feira juramento no parlamento, numa sessão boicotada pela oposição nacionalista, após ser eleito em 26 de fevereiro numa votação no hemiciclo, entre amplos protestos de rua e com a oposição a manifestar-se no parlamento, incluindo através da utilização de gás lacrimogéneo para bloquear as sessões e também denunciar o acordo negociado entre Pristina e Belgrado sob a égide da União Europeia (UE).

Historiador de formação, Thaçi é fundador e líder do Partido Democrático do Kosovo (PDK), a principal formação do jovem país.

Entre 1998 e 1999 destacou-se como o líder político do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) durante o conflito armado entre os separatistas armados albaneses kosovares e as forças sérvias, e que terminou com a intervenção da NATO e a formação de um protetorado da ONU.

A popularidade de Thaçi atingiu o zénite em 17 de fevereiro de 2008, quando na qualidade de primeiro-ministro anunciou no parlamento a declaração de independência unilateral do Kosovo e a sua separação da Sérvia.

A sua imagem foi afetada por uma relatório de 2010 que o associa, com outros ex-rebeldes kosovares, a atividades criminosas, incluindo o tráfico de órgãos de prisioneiros sérvios.

Entre 2002 e 2003, os investigadores do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ) interrogaram oito testemunhas das deportações de civis sérvios e albaneses do Kosovo para a Albânia no decurso do conflito, e do presumível tráfico de órgãos humanos organizado pelo UÇK.

O relatório que então elaboraram ficou suspenso, mas deverá agora ser retomado com o anúncio de um tribunal especial que em breve deve entrar em funções para julgar estes crimes.

Thaçi sempre negou estas acusações, mesmo após a publicação do relatório pelo diário digital kosovar Insajderi. O Tribunal especial do Kosovo, também sediado em Haia, deverá ainda examinar com particular atenção as alegações de tráfico de órgãos humanos contidas no relatório de Dick Martin e publicadas pelo Conselho da Europa em 2010.

O novo Presidente kosovar assinou em 2013 um histórico acordo de normalização com a Sérvia, que permitiu a aproximação das duas partes ao bloco comunitário mas muito contestado pela oposição interna, que rejeita o projeto de associação de municípios sérvios.

O Kosovo, com 1,8 milhões de habitantes e com maioria de população albanesa, assolado por graves problemas económicos e sociais, foi até agora reconhecido como Estado independente por mais de 100 países, incluindo os Estados Unidos e a maioria dos Estados-membros da UE.

No entanto, a Espanha, Roménia, Eslováquia, Grécia e Chipre recusaram reconhecer a independência do Kosovo, para além da Sérvia, China, Rússia, Índia ou África do Sul.

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