Absurdo. Karl. Mentiras. Quem é McEnany e que revelam as notas da assessora de Trump?

Fotógrafo expôs as notas de Kayleigh McEnany durante a conferência de imprensa. Organização e assertividade de mãos dadas com declarações falsas.

Podia ter sido apenas mais uma conferência de imprensa que ficava para a história com um duelo entre a administração Trump e os media sobre quem fala a verdade (como se explica adiante). Mas desta vez uma fotografia da Reuters mostra a pasta que a porta-voz da Casa Branca leva para sala de imprensa James S. Brady, revelando que há pelo menos uma pessoa na equipa do presidente que trabalha de forma metódica e organizada.

Da imagem aproximada do leitoril vê-se que McEnany usa um dossiê com mais de 40 separadores, com tópicos recorrentes como Rússia, China, Obama, ou relativos à pandemia como CDC (Centro de Controlo de Doenças), Testes ou Máscaras.

Não falta a sobrinha de Trump, Mary, cujo livro demolidor sobre a família vendeu mais de 950 mil cópias entre as encomendas e o primeiro dia de vendas nas livrarias.

A fotografia tem dado muito que falar e especular nas redes sociais, não tanto pelos separadores cujos temas são óbvios, mas os outros menos claros, como Absurdo, Karl ou Mentiras.

Assertiva na verdade e na mentira

Kayleigh McEnany é a quarta pessoa a ocupar o cargo de assessora de imprensa do atual presidente dos EUA. Deu nas vistas como comentadora da CNN e da Fox como uma defensora de Trump -- e também na primeira conferência de imprensa, no início de maio, na qual garantiu que não iria mentir, para minutos depois fazer alegações falsas, como por exemplo que o relatório Mueller foi uma "completa e total absolvição" de Trump.

Na mais recente conferência de imprensa, McEnany voltou a ter uma litigância com os factos. Reiterou a ideia da administração de que as escolas devem reabrir na totalidade no próximo ano letivo, e fê-lo com tanto fervor que dispensou a opinião dos cientistas, mas também sugeriu o contrário.

"Sabem, o presidente disse inequivocamente que quer que as escolas sejam abertas. E eu estava precisamente na [Sala] Oval a falar com ele sobre isso. E quando diz abertas, ele quer dizer totalmente abertas, podendo as crianças frequentar todos os dias a sua escola. A ciência não deve impedir que isso aconteça.", declarou McEnany.

Só que depois McEnany citou um estudo que dizia que o risco em crianças de ficar gravemente doente com covid-19 é menor do que a gripe sazonal. "A ciência está do nosso lado", disse. Citou também o antigo chefe de Neurorradiologia de Stanford, Scott Atlas, que resumiu o debate em torno da reabertura de escolas a "histeria".

Com as notícias sobre a frase de que a ciência não é chamada para a questão da reabertura escolar, McEnany reagiu no Twitter: "Estudo de caso em meios de comunicação social tendenciosos: Eu disse: "A ciência é muito clara a este respeito... a ciência está do nosso lado. Encorajamos as nossas localidades e estados a seguirem simplesmente a ciência. Abram as nossas escolas". Mas deixem aos meios de comunicação social a sugestão enganosa de que eu estava a defender o oposto!"

Para quem não atente ao conteúdo, a forma como McEnany se desembaraça das perguntas dos jornalistas demonstra eficácia e método.

Por exemplo, nesta mesma conferência, questionada sobre as duras críticas do governador republicano de Maryland, Larry Hogan, à gestão da pandemia de Trump, McEnany tinha a resposta preparada no separador Hogan.

Mostrou-se surpreendida com as declarações do governador mais popular dos EUA, tendo criticado a "história revisionista" de Hogan, que "literalmente 24 horas antes tinha elogiado o presidente" e não respondeu à questão de fundo -- a de que cada estado foi deixado à sua sorte. Uma crítica que, aliás Hogan já fazia publicamente pelo menos desde o mês passado, como nesta entrevista à Rolling Stone, e ainda em março já desmentira a afirmação de Trump de que os testes estavam "amplamente disponíveis.

Ao ser questionada na semana passada sobre a reforma do tenente-coronel Alex Vindman (testemunha no processo de destituição de Trump), McEnany, de 32 anos, afirmou: "Não vou fazer comentários sobre um antigo funcionário subalterno." Vindman tinha mais de 20 anos de experiência, uma folha de serviço inatacável e é visto como um patriota e um herói militar.

Saídas de cena dramáticas

Outra característica de McEnany na sala de imprensa são as já habituais e estudadas saídas de cena. O Washington Post qualifica a atitude da assessora de "teatro político", os seus finais abruptos, os quais, como refere, "dão-lhe, com efeito, a última palavra" e "estão também em linha com as perpétuas denúncias do seu chefe aos meios de comunicação social como 'notícias falsas'".

Ao Post, a professora Jennifer Mercieca, especializada em retórica e assuntos públicos, afirma que a forma como McEnany põe fim à conferência demosntra "o quão adversa é atualmente a relação entre a secretária de imprensa e a imprensa". E conclui: "O final abrupto assinala uma falta de respeito pela imprensa, especialmente depois de ela ter repreendido as suas notícias."

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